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macri baila

O museu da língua foi criado não faz muito tempo, num edifício colorido anexo à Biblioteca Nacional, um oásis de jardins no meio de duas avenidas muito movimentadas da cidade, a Las Heras e a Libertador. O museu é bem interativo e lúdico e há muito destaque para as línguas dos pueblos originários, seja como ausência – as milhares de línguas que desapareceram com a imposição do espanhol colonial-, seja como uma ponte aos estranhos sotaques, toadas e ritmos das poucas que ainda coexistem com um espanhol  também diverso, cuja principal especificidade unificadora reside no voseo (a popularização da segunda pessoa do plural nas situações comunicacionais cotidianas). Surpreendente para um país que se funda sobre a invisibilidade total do componente negro na formação nacional é a pequena redoma de vidro com fotos e informações sobre a procedência dos negros que vieram para Argentina.

Descendo as escadas uma mostra inteira dedicada a Borges e o tempo, com destaques para outras obsessões borgeanas como os labirintos. Numa mesa alguns cartões revelam passagens do diário de Bioy Casares sobre Borges. São citações a causos contados por e respostinhas geniais dadas por Borges em reuniões com amigos, em trânsito pelas distintas paisagens sociais da cidade. Notório anti-peronista teria dito, segundo Bioy, que a feiúra das edificações periféricas correspondia à feiúra da cara mesma de Perón…

Subindo as escadas, uma sala inteiramente dedicada à literatura com destaque para o livro fundacional Martin Fierro, mas onde também é possível topar-se com pérolas do acervo da Biblioteca: entre Borges, Cortazar, está Rimbaud, mas também Euclides da Cunha comentado por uma estrela da literatura argentina Cesar Aira. Sim há um olhar voltado pra Europa, física, mas também a simbólica da Civilização e Barbárie positivista, de Sarmiento, mas há um olhar voltado pros sertões.

A literatura aparece como pedagogia no livro de Evita, a Razão do meu viver, e Nunca Más, o relato pormenorizado dos horrores da ditadura que assombrou  jovens dos anos 80 e 90, e se converteu no principal mote da política de direitos humanos levada a cabo pelo governo kirchnerista e por distintas organizações civis na década de 2000.

Na véspera das eleições e um pouco longe do oásis de jardins e de revisionismo histórico progressista, ameaças de bomba pipocaram na ex-Esma, a escola de mecânica da Armada que outrora sediou os crimes de lesa humanidade cometidos por ditadores e seus tentáculos contra a população civil, hoje um centro de memória doado aos familiares dos desaparecidos no governo Kirchner. Segundo os autores, que também deixaram mensagens escritas em outros locais semelhantes, os dias daqueles que se dedicaram à farra de arrancar à força justiça, memória e verdade estariam contados, emulando a uma frase atribuída a Maurício Macri em entrevista prévia a um meio de comunicação.

Mas voltando ao museu, saímos das dependências e nos sentamos no jardim num fim de tarde de sábado tranqüilo e melancólico. Depois das 22 horas de domingo, sabe-se lá qual será o destino desse museu e todos os outros canais que o kirchnerismo estabeleceu para criar mais que uma forma de comunicação, uma estética. Nos últimos dias a brincadeira, nem tão divertida, nem tão brincadeira tem sido essa: certo dia vendo na TV pública um documentário em que cientistas dos países desenvolvidos projetavam suas respectivas ganas coloniais nos extra-terrestres, nos perguntávamos se programas como este não serão o principal norte da nova programação. Em outros memes internet afora, Mickey Mouse aparece no canal infantil Paka Paka proclamando-se o novo CEO. Um pouco de pânico moral versão nac&pop talvez…Mas certamente o reconhecimento de que fomos seduzidos pela estética K.

Seguimos pela rua Austria e paramos um pouquinho no Café com Perón coroando um fim de semana nostálgico que começou com a audição quase acidental de uma seleção de musicas sobre e para Getúlio Vargas.

E se o passado traz um ponto de contato, o presente também o faz. Uma amiga brasileira que vive aqui se disse impressionada com as semelhanças com o último pleito brasileiro. Eu não posso discordar. Outras semelhanças em outros períodos também me assombram, como a epidemia de lichamentos divulgada cotidianamente pela imprensa durante um curto período de tempo.  Não ocorrem mais? Se sim, porque naquele momento específico virou notícia? Mas antes de tudo: por que países tão diversos respondem de forma tão parecida e peculiar à narrativa do medo e da insegurança?

Muitos meios brasileiros vêem a polarização na política argentina como uma imagem refletida no espelho. A última década teria sido a década da cisão, do fosso, do abismo. Não há como não pensar que se a cisão surge como aspecto constitutivo do chamado bolivarianismo ou do populismo 2.0, esta veio cindir uma pangeia que caracterizava a cartografia ideológica anterior. Famílias brigam, casais terminam, amigos bloqueados nas redes sociais: o pacto social ameaçado na explícita e nova falta de solidariedade entre indivíduos em pólos opostos do tabuleiro ideológico, não importando nem mesmo o grau de parentesco.

À narrativa da cisão como uma Eva que expulsa a todos nós do paraíso, se soma a narrativa de uma imprensa independente – não importando se monopolizada por uma (ou quatro) famílias – que se apresenta como apocalíptica – quando está integrada há décadas- , que também dialogam com a narrativa da homogeneidade do espectro político-ideológico. Não há contradição. Nessa leitura, não há diferenças significativas e a cisão seria apenas um recurso, dos mais ordinários até, para lançar todos em uma batalha épica entre exércitos distintos comandados pelos mesmos generais.

Difícil definir qual desses argumentos é o mais conservador: o da Eva-cisão que expulsa todos nós do paraíso ou o da homogeneidade do espectro político. No final, a fórmula dessas duas hipóteses é muito similar: a de uma ideologia única que atua em frentes contraditórias e por isso não pode ser contraposta a ponto de ser naturalizada ou ainda uma ideologia disputando não com uma ideologia contrária, mas com a natureza, com as coisas como são. Em outras palavras, nesta ultima, no tabuleiro político, apenas as peças de uma cor estão a serviço da ideologia, enquanto as outras peças são expressões das coisas como são: o mercado como verdade, a equação harmoniosa entre economia e sociedade como impossibilidade, forjada na inexistência do “almoço grátis”, a meritocracia como expressão darwinista vulgar que nos recorda que somos animais lutando para sobreviver numa selva que é dos fortes, fruto da inerente, ou genética, qualidade que nos faz competidores.

Depois do surpreendente resultado do primeiro turno em que a situação se entregou a um estado de catatonia varrido por uma espiral precoce da derrota, a oposição falou durante a campanha e durante a jornada eleitoral que este domingo constituiria o marco zero do diálogo. Massa, a terceira via, uma dissidência da situação, também endossou a tese do (eterno) retorno do diálogo.  Se é improvável que o dialogo “renasça” como fênix das cinzas, é certo que um ciclo é encerrado nos âmbitos peronista, argentino, mas também prenuncia um encerramento de ciclo nos principais países sul-americanos.

Mauricinho Macri que apela cada vez mais a um repertório new age deixou a escola onde votou e foi jogar futebol com os amigos marcando um impressionante gol. A fórmula da tranqulidade zen tem dado resultados e lançou o candidato, um medíocre orador agora convertido em estadista, numa espiral de vitória. No debate, a ausência completa de dados duros foi suplantada pela carta de uma abstrata revolução da alegria tirada da manga. De onde saiu esta, estavam outras, sendo a principal a carta da não menos abstrata mudança, em que avançar ou retroceder não é relevante. A governadora eleita chegou a falar em trocar futuro pelo passado. Num segundo ato falho memorável, Macri new age estacionou sua impressionante frota de jatos no aeroporto de uma capital da região Norte e, apelando às forças telúricas da Pachamama, quase troca “progresso” por “pobreza” em discurso de fim de campanha.

A Scioli sobrou um pouco atraente discurso do filho bastardo: sem direito à hereditariedade kirchnerista, tão pouco podia apegar-se ao mote da mudança, patenteado pela oposição. Nos 45 minutos do segundo tempo recebeu, no entanto, uma ajudinha divina (depois de tudo um precedente existe, Deus itself teria intercedido na mão de Maradona contra a Inglaterra na Copa): Francisco, o papa pop permitiu-se a picardia de incentivar uma furada de globos. Os globos ou balões estavam diretamente associados à campanha macrista. O marqueteiro do Cambiemos praguejou: argentino ou sueco, não importa a nacionalidade, um papa não conseguiria angariar nem dez votos.

Se o primeiro debate do primeiro segundo turno da historia argentina não serviu para influenciar consciências uma vez que os dois candidatos se dedicaram a falar para os convertidos, se pode dizer que coroou uma campanha um tanto quanto equivocada. Visivelmente nervoso, Scioli estava completamente deslocado no palco, enquanto Macri beijava animadamente a esposa, e Karina (a senhora Scioli) perdia o bonde chegando segundos depois,  ficando, por sua vez, num pequeno vácuo enquanto o marido cumprimentava o adversário e sua respectiva. Perdeu a chance de ser propositivo, optando por apontar a artilharia pesada no opositor. Colou e não saiu mais dessa ofensiva a pecha da desagradável estratégia do medo.

Ao reconhecer o triunfo do adversário, Scioli falou em se organizar na oposição para garantir a sustentabilidade do que foi conquistado. Macri proferiu um discurso de coaching, como aqueles em que tentam convencer funcionários explorados a reivindicar a empresa como uma família. Diante da patente limitação do repertório new age em que prometia a cada um dos argentinos ajudá-los a desenvolver suas potencialidades, bailou por mais de dez minutos.  Bailou como um tio pícaro embriagado no fim da festa de Natal. Bailou como se não houvesse amanhã. A dança parecia durar uma eternidade e provocava flagrante dissociação com a legenda: Argentina escolhe o novo presidente.

No dia depois, reedição da Guerra Fria, uma política de direitos humanos reduzida à vingança e os mercados abertos ao mundo: um museu que insiste em apresentar todas as suas obras empoeiradas como grandes novidades. No entanto, o campo está em disputa. Não custa lembrar que before Grécia there was Argentina. E o legado do contunde não dado em 2001 paira, mesmo que subterrâneo.

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