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Pesquisas que revelam dados que não encontram respaldo na realidade, votos sem tesão, votos de oposição mais que de convicção, o mal menor, uma terceira via pra lá de suspeita, uma disputa entre o projeto de desenvolvimento nacional e popular versus o projeto neo-liberal privatizador acossada pela inexorabilidade do ajuste e do tarifaço.  Parece um déjà vu das eleições de 2014 no Brasil varonil, mas são as eleições de 2015 na Argentina, que pela primeira vez vão para o segundo turno. Como assim nunca teve segundo turno?! Povo decidido?! Seja lá o que acontecia no passado, no presente o editor do Le Monde fala numa brasilisação da Argentina (e numa argentinização do Brasil).

Pensamento esse longe de ser isolado, encontra um eco também em terras tupiniquins: a carta Capital também aposta na brasilisação da Argentina. Complexo de vira lata não nos deixa pensar nessa expressão como algo positivo. Nem com direito a Zigmunt Bauman dizendo que o Brasil é a terra dos milagres (Natanson, o tal do Le Monde utilizou, coincidentemente milagre e futuro no título de sua analise de outubro de 2014, às vésperas do segundo turno). Mas podia: aqui me parece que o debate sobre a inclusão via consumo e não via cidadania é muito incipiente. No Brasil anda a todo vapor. Não se trata disso, no entanto. Se trata mais de um conservador desprezo pela política – pedra fundamental do país da democracia racial que, vejam só, cai como um castelo de cartas já que os preto tão chutando o balde e o mundo todo tá vendo – e no outro pólo, de uma cultura política fervilhante (apropriada no Brasil nas jornadas de junho de 2013) cheia de reviravoltas no país em que a instabilidade é a regra, a nostalgia também e onde o espectro da esquerda é bem mais amplo assim como o espectro do peronismo que pode ser de direita, de esquerda, tudo cabe ali, muito maior que um coração de mãe. As coisas são profundas…

Nos dois casos, no entanto, uma prova de fogo: a prova de fogo é a manutenção do projeto depois de quatro mandatos. No Brasil ainda estamos no inicio do quarto e já vislumbrando o fim (pra mim, apesar dos pesares, prematuro). Também pudera: é tiro porrada e bomba de todo lado tentado borrar o “bolivarianismo” do mapa. A outra estratégia comum, menos física digamos, consiste no surrealismo dadaísta: os papas e os apóstolos do ajuste, da desigualdade e do Satanás-misturado-com-a-desgraça se apresentam não só como a reserva moral mas, levantando a bandeira da esperança da direita (ainda no armário) contra o medo incutido pela esquerda.

No entanto, um ponto positivo em comum nas duas campanhas é que privatização e o retrocesso nos programas de redistribuição de renda adquirem um status de tabu. Ai de quem bradar que defender essa agenda é compatível com a esperança. Os playboys que emergiram na América do Sul como a contracultura do progressismo nacional e popular tão tendo que usar essa máscara e interpretar bonitinho esse papel.

Mas há diferenças: a disputa pela memória aqui continua sendo ganha pela corrente que foge dos anos 90 como o diabo foge da cruz. No fim das contas, num sentido mórbido, Menem prestou um serviço, como Bush. A cretinice disfarçada de ponderação e charme sociológico de FHC presta, seguindo essa mesma linha, desserviço. O preço aqui no curto prazo foi altíssimo, por supuesto. Mas lá talvez mais porque mais sustentável no tempo que o choque de realidade da crise de 2001. O walking dead é a norma desde os tempos do Brasil colônia. Mas voltando à Carta, ainda que tendo assumido um pouco a postura de profeta do dia seguinte, queria destacar uma consideração que me pareceu importante: gratidão garante uma eleição. Na segunda, a gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte…

E é ótimo que assim seja. Jorge Ben numa marchinha satírica bradou por pizza e por café. Tudo ao mesmo tempo agora. Vamos por mais. Sempre. Mas a disputa deve se dar de dentro. Não do lado de fora do cordão de isolamento, que separa a pipoca dos VIPS da classe dominante e seus entusiastas da classe média, que pagando em 12 prestações o abadá, juram que fazem parte do grupinho que é convidado pro camarote e mimado com sushi. Se Menem prestou serviço pra eles, a arquitetura do carnaval devia ser bem ilustrativa pra gente…

No Brasilzão, terra de milagres e futuros, a memória é curta e a disputa é acirrada, com vantagem pros desmemoriados em processo patológico de negação que insistem em não reconhecer os já conhecidos efeitos do ajuste (sejam da ala playboy ou o da ala petista religiosa, pra quem qualquer critica é heresia todo dia), da ditadura,  da escravidão….

Mas aqui o sistema político parece menos zoado, menos no future, ainda que a terceira via massista se imponha como um baby PMDB menos consolidado e articulado: no momento em que a boca de urna revelou um 36% sciolista contra um 34% macrista, os mais de 20% massista começaram a valer ouro no mercado eleitoral. Sabendo disso, a Marina Silva argenta começou a falar em um textão com propostas oferecidas às duas freguesias como condição sine qua non do apoio. Enquanto o eleitorado verde marinista podia pender por vezes pra uma esquerda de boísta ambientalista, ainda que a candidata declarasse seu apoio ao candidato hardcore da oposição, o eleitorado massista é uma incógnita total, sinédoque da incógnita peronista que sequer me atrevo a destrinchar aqui. Em um sentido mais aberto pende pra direita (o carro chefe da campanha é a militarização das favelas), no entanto, podem entrar ali os desencantados com o kirchnerismo, mas nem por isso adeptos ao macrismo. Descobrir quem são, o que querem e como vivem os massistas parece ser a ordem do dia, assim como foi a ordem do dia descobrir afinal, resignificando a fórmula freudiana, o que queriam os manisfestantes de junho.

É preciso pensar, portanto, como implantar um reencantamento do mundo. Nesse sentido a luzinha no fim do túnel brilha bem mais forte aqui: diferentemente de Dilma, o Congresso que espera por Scioli é um congresso já pós-iluminista e não o nostálgico do medievo, como no Brasil, onde o RPG live action é a tendência.  No carro chefe do plus, do queremos mais, a proposta da abolição de um imposto sobre os lucros, que come 21% do salário de todos, especialmente dos aposentados. Mas de onde saiu isso, pode e deve sair muito mais….

Pra chegar lá, a Frente pra Vitoria precisa sair da catatonia disparada com o resultado do primeiro turno. Depois disso, as coisas podem ficar mais fáceis. Ia usar metáfora militarista e falar em tropa, mas adotarei a critica de Cris, que insiste em recusar essa analogia e falar em militância: que tal acionar a militância nas universidades que pipocaram no conurbano, em que muitos são os primeiros a ingressar no ensino superior em suas famílias, acionar a belíssima política de Memoria Verdad y Justicia capitaneada pelas Abuelas e pelos HIJOS, que tal ir por um Mercosul resignificado que investe cada vez mais numa integração real para além das cadeias de montagem das automotrizes, que tal acionar os putos (são as bichas daqui) peronistas e os não peronistas também que conquistaram o direito histórico do matrimônio igualitário num continente ainda mergulhado no obscurantismo, ou ainda que tal invocar a aguerrida Ley de Medios?

lula-kir-chavez

Não sei, não quero desistir desse projeto tão cedo. Também não quero mergulhar em tristeza nostálgica de um Kirchner, um Lula, um Chavez recusando a ALCA em Mar del Plata como tempo bom que não volta nunca mais. Pouco tempo passou, mas o contexto é outro e impõe outros campos simbólicos, novas disputas aparecem e coexistem com as velhíssimas que tão aí vivinhas da silva, centenárias, matusaléns,  mas com outras roupagens. Certeza só uma: Hay que endurecer sin perder la ternura jamás! Depois de tudo, o Che era argentino (e o papa revo também), San Martin, brother de Bolivar, saiu liberando Deus e o mundo. Um mojo underground esse povo tem (e lembrando o Eco, os apocalípticos são sempre mais bafudos e sexy que os integrados). Porque a questão é antes de tudo, estética: eu quero mais a tradição revo-doidinha argentina vivinha e aqui bem pertinho de mim, de todos nós.

Volto depois com o segundo capítulo dessa novela do Vale a Pena Ver de Novo: o bombástico debate presidencial no 15 de novembro.

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