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maria creuza

Não é incomum conversar com argentinos que conhecem a Maria Creuza (e mais, as suas canções!). Pode ser um garçom que lança essa referência quando reconhece marcadores de brasilidade numa mesa de restaurante, mas pode ser o enorme outdoor numa movimentada avenida anunciando o próximo show da cantora brasileira.

Buscando discos de vinil num sebo em San Telmo, me deparo com discos e discos de Maria Creuza, mas também de Chico, Milton, Fagner, Bethânia e Jorge Ben. Retiro um disco da prateleira identificada como “Brasil” para analisar a contracapa. O simpático senhor dono da loja me pergunta se eu sei o que significa Fio Maravilha. Um pouco reticente digo que é um jogador de futebol. Ele se surpreende e eu mais ainda: apesar do meu pelo enrulado e do sotaque, ele até então talvez não houvesse considerado a possibilidade de eu ser brasileira. Correndo o risco de ensinar a missa ao papa, decide me contar como Jorge Ben compôs a canção. Para não cometer gafe da arrogância ou da desinformação, busca meu olhar com interrogações para que eu pudesse confirmar detalhes da anedota que envolvia “aquele” jogo amistoso entre o “Corinthians?” e o Porto. O clamor da torcida (ele fala assim mesmo em português e não hinchada). A entrada de Fio no segundo tempo e o que ele faz com a primeira bola que recebe em campo. O gol, a torcida vai à loucura, Jorge Ben volta pra casa inspirado e compõe a música. Um cliente escuta um pouco, comenta um tanto em portunhol, chancela algumas escolhas (o disco do Gil que separei para levar) e se despede.

Uma vez um amigo me disse que não havia coisa mais terna que um argentino falando português. Eu decididamente não posso discordar. E não tem a ver com gringo que, num ato de “nobreza”, dedica seu precioso tempo para arriscar algumas palavrinhas em português. Não gosto de yankees falando português, por exemplo, com uma única exceção: certa vez estava com meu querido amigo e Sancho Pança no nosso bar cativo em San Telmo quando o apresentei para um simpático casal de amigos cariocas. O amigo revelou seu nome: Régis. O Sancho repetiu para confirmar se havia entendido corretamente “Regix?”, incorporando sem perceber o carioquismo.

Mas voltando aos argentinos e sua pronúncia, acho que o português desarma instantaneamente a formalidade e a rispidez dos hermanos. É como se eles fossem atingidos por um raio de malemolência e doçura.

Um dia estava fazendo cara de paisagem no corredor da faculdade, quando G. se aproximou e me perguntou o que significava “Me liga?” Depois da minha respostinha engraçadinha que prefiro privar meus poucos e queridos leitores de tamanho constrangimento, ele me explicou que na verdade era o título de uma música dos Paralamas do Sucesso. Disse que não conhecia a música e sugeri que escutasse Barão Vermelho. Para a minha surpresa, ele achou quase irrelevante uma canção da potência de “Pense e Dance”. Desenvolvemos depois uma teoria sobre a mimesis precária e terceiro mundista das nossas bandinhas de rock, especialmente aquelas dos 80’s: uma coisa é bancar a precariedade quando ela vem amalgamada a toda uma carga emocional, imagética. Música como afeto e memória. Outra coisa já muito mais difícil é bancar a precariedade do outro, destituída de tudo isso. No entanto, com o tempo, a mimesis precária daqui começou a adquirir uma carga emotiva pra mim, que me permitiu apreciar um monte de coisas nunca dantes apreciadas. Imagino que o mesmo passou ao G.

Mas a minha proto-teoria sobre os desafios da integração centra-se no fato de que uma das fissuras consiste um pouco nisso: os xóvens argentinos não conhecem Maria Creuza. Quando digo Maria Creuza, não quero necessariamente dizer Maria Creuza. Quero dizer que uma geração anterior fruía os cânones brasileiros e outras expressões nem tão canônicas, mas de algum modo relevantes para o espírito da época, como a Maria Creuza. Uma unanimidade entre os coroas aqui, por exemplo, é o Toquinho. Vinicius passou uma temporada fazendo shows em Mar del Plata e recebendo seus amigos argentinos e brasileiros na banheira de sua casa. G. escutava no carro do pai, o Balancê, numa fitinha cassete, entre Tim Maias e outras canções românticas dos 80’s. Certa vez uma vizinha nos incumbiu a mim e a um querido amigo da seguinte tarefa: que escutássemos um CDR com músicas brasileiras e identificássemos pra ela o nome do artista e da própria canção, dados que ela desconhecia. A letra também não viria mal. Discos de Roberto Carlos eram comercializados aqui com canções em português e em espanhol. Aliás, uma bandinha punk-pop tem uma versão para Amigo, do Rei.

Mas voltando à fissura: essa referência se perdeu e outras talvez ainda não tenham se consolidado. E pior, certos desentendimentos têm sido frequentemente reproduzidos. Quando conversam com os hermanos brasileiros nos bares dos bairros turísticos, os argentinos mostram-se algo curiosos com a música brasileira, e ao mesmo tempo, orgulhosos da música pop argentina: o Soda Stereo lotou o Estádio que tem monumental no próprio nome e inspirou a Sodamania em toda a América Latina, dizem. “Que fenômeno seria comparável no contexto do patropi?”, querem saber. Os brasileiros por sua vez, pensam, pensam, e respondem: “Talvez algo como os Titãs?”, arrisca uma pós-balzaquiana e seu marido num after office no bairro do Retiro.

A Argentina é um país em que a música popular é, em grande medida, o rock’n’roll. Pra se ter uma idéia, quando se comemorou aqui o bicentenário da nação durante uma semana, entre tantas festividades, um evento foi dedicado ao rock nacional. Daí que algo como a MPB é uma abstração, e a analogia se dá entre o rock daqui, que em alguns casos, avançou para além das fronteiras nacionais, e o rock de lá. Mas o rock de lá é só um dentre os vários, e estarei exagerando ou talvez nem seja lá dos mais populares?

Mas integrações maravilhosas por seu caráter ao mesmo tempo acurado e acidental são também possíveis: no restaurantinho lesbofriendly sempre toca Adriana Calcanhoto no repeat. Uma integração bizarra se consolida todas as vezes que uma noiva argentina diz sim a um noivo argentino: nas festas de casamento aqui é comum lá pelas tantas, quando tá todo mundo bem pra lá de Bagdá, o DJ soltar o “carnaval carioca”. O carnaval carioca é um popurrí de músicas, em grande parte do Jorge Ben, como uma base assim meio eletrônica tosca de videokê que embala o auge da embriaguez dos convidados, momento em que se distribuem uns acessórios baratos, óculos chamativos, gravatas de lantejoulas, colares havaianos e todo mundo pode experimentar um controlado descontrole, de forma bem mais íntima e especialmente, mais segura que o carnaval carioca itself.

Pra não cair no nostalgismo barato e vaticinar que a integração tá retrocedendo, faz um tempo estou tentando identificar por onde ela passa e como se manifesta agora. E talvez passe um pouco pelo cinema argentino, materializado essencialmente na figura de Ricardo Darín (Darín pra embaixador da integração regional!). Da mesma forma, Tropa de Elite serve como desculpa pro início de muitas conversas. Eu sempre insisto com eles que esse filme é o próprio desserviço, mas pensando bem, ao cinema tese (proto-fascista) de Padilha, a imprevisibilidade do cotidiano transnacional responde dessa forma: resignificando-o como um disparador de uma micro-integração no melhor dos casos e de um bom debate, no pior. Ou seja, estamos no lucro. E enquanto “Gustavo Lima e você” é entoado em coro nos clubes mauricinhos de Palermo, “Ai se eu te pego“ soava a todo vapor na vizinhança, o último capítulo de Avenida Brasil era exibido no Luna Park, os coroas continuam escutando Maria Creuza, Roberto e vendo referências inusitadas a Macunaíma nos novos filmes brasileiros exibidos no circuitinho dos Festivais. E Pola Oloixarac escreve em seu novo livro sobre um fictício projeto de integração tecnológica cujo início se confunde com um intercurso amoroso entre um pardo e caricatamente sensual engenheiro aeronáutico brasileiro e uma bióloga argentina loira judia um pouco destrambelhada. Me despeço com duas passagens de “Constalaciones Oscuras” que me parecem interessantíssimas. A primeira é sobre as impressões de um colega argentino da loira destrambelhada sobre o novo affaire dela, ao som do hit de Rita Lee, Chega Mais:

“Gustavo observou o recém chegado através do filo curvo de sua caipirinha. Que a garota que ele estava afim fosse cortejada por um homem oriundo do Brasil obedecia a um desses preconceitos compartilhados inerentes à unidade geológica do continente. Filha de misturas ibero-africanas, a proto-hombria brasileira conservava tantos genes em mutação que podia incluir o mais feio e o mais excelso da raça; para Gustavo, essa afronta era uma fase inexorável do materialismo genético histórico, o tipo de destino que o deixava no lugar mais homossexual do Gymnasium, rodeado de gregos antigos, ou quem sabe, de chilenos.”

A segunda é sobre Porto Alegre dos 80’s, cidade em que se encontra o trio, descrita por Pola assim:

“Porto Alegre era o berço dourado da alta burguesia agropecuária. Afastada do descontrole do Rio e da preguiça do Nordeste, em comunhão com os dons de terra e com um clima mais temperado, Porto Alegre se posicionava como a reserva moral do Brasil. Sob a sedução do Partido dos Trabalhadores, a elite gaúcha iria propulsar  a ascensão do PT, consolidando assim sua própria revolução burguesa; produto, ele mesmo da mestiçagem de elementos trotskistas, teólogos e ex-guerrilheiros, o PT terminaria impulsionando junto ao governo argentino o Projeto do Ministério dos Traços do Mercosul, também conhecido como a unificação de dados genéticos de Latam. Mas nada disso se vislumbrava no horizonte circa março de 1981, quando Argentina e Brasil estavam submetidos aos regimes militares e a colaboração entre institutos universitários era uma raridade”.

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