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É bem verdade que existe na Argentina uma tradição de uma cultura política que se estende pelos mais diversos extratos econômicos da sociedade. Essa tradição é captada pelas câmeras dos turistas nas manifestações que acontecem diariamente na cidade de Buenos Aires. Como se aqui se protestasse por tudo o tempo todo. Todos os dias, de manhã, escuto na radio quais ruas estão interrompidas por manifestações. Estas produzem uma mudança na paisagem, nos desvios sugeridos pelos locutores, ao mesmo tempo em que já são parte da paisagem, e para além do aspecto espacial, fazem parte de um curioso calendário que fraciona o tempo e o distribui entre as mais diversas demandas político-sociais. Mas o que me parece interessante aqui não é tanto o resultado, a ocupação do espaço público do centro da cidade, sob os olhares de pedra das esculturas dos próceres nacionais e sim, como para chegar-se a esse resultado, nos distintos bairros, as ações políticas são planejadas nas agrupações políticas, com centros culturais e bibliotecas distribuídos pelos bairros da capital e do que eles chamam aqui de conurbano.

Mesmo num contexto como esse, muitos eram os céticos com a capacidade da demanda “Ni una a menos” (Nem Uma a Menos) convocar uma multidão à praça dos Dois Congressos. Diferentemente das outras convocatórias, essa possuía ainda um ás na manga: a adesão massiva de celebridades que posaram para fotos com a hashtag, algumas realmente comprometidas, outras, apenas bem intencionadas e muitas em claro movimento de autopromoção oportunista. As principais “commodities” Liniers e Lio Messi se manifestaram, seja através de uma tirinha, seja de um recadinho no twitter. E no último grupo, dos oportunistas, os casos mais paradigmáticos são o apresentador Tinelli – espécie de reserva da decadência moral argentina, seria algo como um Faustão, um Gugu Liberato, aquele que elevou às ultimas conseqüências a baixaria televisiva e que, como seus congêneres brasileiros, não dispensa uma dançarina semi nua e convenientemente muda no palco – e o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri – integrante do movimento dos políticos playboys latino-americanos, ao lado do Aécio Neves, Lacalle Pou e  Henrique Capriles  – que não faz muito tempo disse numa radio que as mulheres curtiam tanto uma cantada (aqui, piropo), que curtiam até mesmo aquelas que vinham com uma grosseria (ele mesmo usou essa expressão), dando um exemplo bastante gráfico para um prefeito da maior cidade do país, envolvendo “rabo” (aqui, culo).  Uma espécie de faca de dois gumes, a adesão de pessoas como Tinelli ou Macri indicava que a demanda chegava aos rincões mais inesperados da cidade e até mesmo do país, e ao mesmo tempo, poderia esvaziar-se numa foto promocional diante da aberrante incoerência. E mesmo assim, o ceticismo pairava nas conversas que indagavam “será que vai dar muita gente?” O fato é que o feminismo não costuma gozar do que poderíamos chamar de popularidade, nem aqui, nem em boa parte do mundo.

Mas são essas coisas que não se podem explicar facilmente. Se a sociedade praticamente inteira aderiu e se declarou farta dos recorrentes casos de feminicídio, amplamente divulgados – aqui novamente para o bem e para o mal, numa cobertura televisiva e gráfica que termina por fetichizar os corpos femininos lastimados – por que não se mobilizou antes?

A resposta, que não me arrisco a dar, passa pela análise de uma conjectura, que não termina de explicar tudo, porque há sempre algo de orgânico, espontâneo, imprevisível e misterioso nesses encontros multitudinários. Uma conjectura, que pode ter sido disparada, como argumenta a narrativa oficial, pela indignação com os crimes cometidos contra adolescentes e também crianças, pela articulação de jornalistas e intelectuais, pela força e pressão dos movimentos feministas, mas também, como esse discurso está latente  nos meios oficiais, e aqui vale delongar-se um pouco sobre como esses meios oficiais se apresentam e reconhecer um ponto distintivo: enquanto o projeto Lula-Dilma simplesmente enterrou um projeto de TV pública no Brasil, o kirchnerismo construiu seu projeto, televisionando-o, ao formular uma proposta estético-narrativa extremamente atrativa às classes médias, mas não só, e para muito além da propaganda e do proselitismo. A TV pública que inclui ainda um canal de documentários (Encuentro) e um canal infantil (PakaPaka), incorpora desde o comediante mais querido do país, Peter Capusoto, até o guia perverso da ideologia de Slavoj Zizek, ao abecedário de Deleuze, a um programa apresentado por Alfred Hitchcock, à transmissão do futebol – antes privilégio dos canais pagos – aos ciclos de cine com o que há de mais raro seja no subgênero filme B, sejam nos clássicos das mais distantes coordenadas e épocas, ao polêmico 678, programa de debates (lembro que quando Beatriz Sarlo uma das mais respeitadas intelectuais do país e assumidamente anti kirchnerista foi convidada ao programa e foi como o último capítulo de uma novela de Gilberto Braga). Zaffaroni o juiz também muito querido e reconhecido aqui e fora do país também teve seus programas sobre o decálogo de Kieslowski, e outro sobre a questão penal e carcerária no país.  Ricardo Piglia apresentou uma sequência de aulas magna sobre Borges. E no dia da mulher, um programa discutiu a violência machista, e nos outros dias, muitos outros refletem sobre as mulheres – campesinas, militantes (as madres e abuelas da Plaza de Mayo e  hijas dos desaparecidos) – feminismo e política.

Essa digressão toda apenas pra situar desde que lugar a situação, goste-se ou não, encampou e expandiu a demanda. Os meios não públicos, mas com estreitas relações com a situação, não só deram destaque, como foram os coautores da convocatória, como o caderno feminino e feminista – é importante ressaltar – Las 12, do jornal Pagina 12, que interpretou um importante papel no momento anterior e que certamente terão um papel chave na reverberação pós-mobilização.  E os demais meios foram obrigados a seguir a pauta, uma vez que esta se tornou grande demais para ser ignorada.

Na manhã do dia 3 de junho, no programa de rádio Perros de la Calle, apresentado por uma estrelinha que fez carreira no CQC argentino e sua crew de mauricinhos debatia violência machista e outros temas relevantes do feminismo por umas duas horas, com protagonismo da única locutora feminina, Flor. Na radio indie hispster, a locutora mais conhecida, Tania, anunciava que estava a caminho da Praça para dali fazer a cobertura do evento. Na televisão, só se falava disso, nas ruas, folhas de papel A4 colocadas nos postes com desenhos infantis convocavam a exigir nem uma a menos na praça, assim como os anúncios luminosos no metrô. E toda a informação sobre o assassinato de mulheres a cada trinta horas no país, sobre a conseqüência dessas mortes plasmadas na orfandade das crianças, sobre a apropriação oportunista da campanha por parte de algumas celebridades com o intuito de autopromoção circulando pelos meios, no boca a boca, pelo ar, mensagens de email, celular. E para mim era como um exercício de narrativa de ficção científica: um dia as plantas liberaram uma substancia que fez a população ser feminista, e no que se converte o mundo com a súbita contaminação dessa “doença” misteriosa chamada feminismo.

E no mundo ou nas praças (foram mais de cem pontos de encontro em todo o país), metonímia do mundo, uma multidão de mulheres altas, baixas, gordas, magras, cocotas, coroas, hippies, periféricas, mães, avós, filhas, grávidas, bebês, meninas e seus parceiros, maridos, amigos, irmãos, pais, avôs marchavam… A diversidade de classe social e de etnia foi que mais me impressionou. A celebridade trans Flor de la V estava lá, os pré-candidatos à presidência da aliança kirchnerista estavam lá, também os deputados e deputadas da oposição. No asfalto vi meninos e meninas com não mais de 12 anos ostentando cartazes que diziam: nem putas, nem mães, apenas mulheres. E no palco, a cartunista Maitena, a atriz Erica Rivas (a noiva descontrolada dos Relatos Selvagens) e ator Juan Minujín liam para a multidão feminista – assim definiu uma das organizadoras, Marta Dillón, um dia depois: “o que se viu foi uma praça feminista” – um manifesto… feminista. Um manifesto que apontava à importância de se discutir o tema como um tema de direitos humanos, sobre a urgência de uma mudança cultural, e sobre o cumprimento da Lei de Proteção Integral das Mulheres, nº 26.485. Um manifesto que reclamou ainda uma cartografia da violência, um registro oficial de feminicídios. Um manifesto que encostou o Poder Judicial na parede.

E de repente tudo parecia muito natural….até o dia seguinte. Não sabia se ia acordar com a sensação de ter vivido um dia estranho de ficção científica, ou se tudo continuaria a fazer sentido. Na radio, os mauricinhos falavam sobre violência de gênero. Na TV falava-se sobre como seguir, como manter presentes as demandas do ato performativo na praça. Nas ruas, as velhas e nem tão boas cantadas…E Buenos Aires linda, com um pouco de ressaca. Os dias que se seguiram foram cinzas e ficaram nublados por uma massa de umidade estranha pairando, um clima pesado e abafado, uma chuva que não vem e um inverno sempre à espreita. Mas tudo parece ganhar foco lentamente, e a imagem do horizonte parece mais definida e clara a cada instante.

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One thought on “Ni una menos – uma tarde num filme de ficção científica?

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