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A Avenida Santa Fe percorre os bairros do Retiro, Recoleta e Palermo. Ao sul, limita com a Plaza San Martin, ao norte com a Puente Pacifico e o Regimiento de Patricios. Em boa parte do trajeto, corta o Bairro Norte, um bairro imaginário que existe no boca a boca e não necessariamente, no mapa. São apenas 40 quadras, mas possui uma identidade bem marcada. Cruzou o limite ao norte, adentra-se um novo mundo, denominado Avenida Cabildo. Diferentemente da Avenida Corrientes, a Santa Fe não oferece distintas opções de teatros, cines e alguns restaurantes icônicos e sim, lojas e mais lojas dos mais diversos artigos, vestuário, calçados, cama, mesa, banho, decoração, eletrônicos, bancos e os cafés-resto-bar, uns complexos enormes de dois andares e ambiance genérica, que oferecem medialunas e café, refeições (massas, carnes brancas e vermelhas acompanhadas de purê de batata ou salada) e bebidas alcoólicas, sob uma luz que não costuma favorecer muito, a um preço não menos extorsivo que um restaurante descolado conceitual.

Pode-se amar ou odiar a Santa Fe com a mesma intensidade, a depender de uma combinação entre o horário do dia e da noite e o sentido em que se percorre a avenida. De manhã, gosto de ver as portas das lojas abrindo, as pessoas circulando, entre sonolentas e dispostas, ainda cheirosas e arrumadinhas, a pé, de ônibus, carro, taxi, bike, como o sangue novo que corre pelas veias urbanas. Sair do centro em direção ao norte te permite ver tudo isso enquadrado pela janela do ônibus. Já o sentido oposto, te permite ver muito pouco, já que a prioridade é lutar pelo espaço vital no ônibus (e nem adianta sair correndo quando este para, na tentativa de garantir seu lugarzinho ao sol. Aqui se faz fila e se costuma respeitá-la).

De tarde a rotina da avenida vai perdendo seu encanto, quando a calçada fica um tanto quanto abarrotada de gente caminhando erraticamente. Algumas pessoas ainda param do nada numa vitrine, te obrigando a frear, antes de provocar um acidente de pedestres. Já os stupid users dos muy smartphones (só pra aludir às excelentes “Adventures of SmartPhone and Stupid Phone”, do querido Max Heath) absortos em diálogos de extrema desimportância no whatsapp, na agência de marketing pessoal facetruqe, ou na seção de grita geral Twitter, te forçam a perigosas ultrapassagens: tal qual nas ruas, existe nas calçadas uma regra, aqui implícita, que destina duas faixas imaginárias, uma para cada sentido. De forma que se você deseja ultrapassar os stupid users, deve fazê-lo antes que alguém venha no sentido oposto (e que supostamente teria a preferência). Falando nisso, as eleições se aproximam, e se me fosse permitido participar da festa da democracia, meu voto era certo no candidato que banisse os stupid users das calçadas. Também dos cinemas, da ópera (eles existem), do transporte público e etc. e tal.

No fim da tarde/início da noite, o efêmero e imperdível lusco fusco transforma tudo em charme puro e se eu não estivesse tão aborrecida com os lerdos, acharia tudo e todos muito lindos nessa luz. Já de noite, o número de transeuntes diminui consideravelmente, e é possível olhar a oferta infindável de coisas expostas nas vitrines elegantes, descoladas, datadas, precárias, copacabânicas… As portas das galerias com vitrines geriátricas convidam a um agradável passeio no túnel do tempo: suéter de tia-avó certinha, suéter de tia-avó louca, vestidos de casamento de tias-madrinhas com muito tafetá e lantejoula.  E dá pra encontrar uma inverossímil unidade no meio do ecumenismo arquitetônico todo. Dá pra ver também os anúncios publicitários monumentais nas medianeiras ou em versões reduzidas enquadrados no meio da calçada, luminosos ou em papel enrugado, desgastados pelas interferências climáticas. Mensagens furtivas aqui e ali, e a interação entre todos esses signos sobrepostos, complementários ou em curiosa oposição: “as lutas semânticas para neutralizar, perturbar a mensagem dos outros ou mudar seu significado, e subordinar os demais à própria lógica, são encenações de conflitos entre as forças sociais – entre o mercado, a história, o Estado, a publicidade e a luta popular para sobreviver”. Talvez quando pensou em Culturas Híbridas, Canclini tenha se inspirado na Avenida Santa Fe.

Na madrugada, enquanto muitas cidades dormem, esta, desperta: a vampiresca juventude portenha sai da toca às 2h, depois de um providencial e reparador cochilo nas primeiras horas da noite, então você pode se cruzar com as mocinhas coquetas e flaquitas, como eles dizem aqui, que se equilibram (algumas com, outras sem muito sucesso) nuns sapatos fechadíssimos de plataformas pesadíssimas, jogando seus cabelos compridíssimos nos mais distintos tons de loiro (acinzentados, dourados, escuros, médios) de um lado para o outro; ou você pode se cruzar com os grupinhos de camaradas (a camaradagem masculina é uma verdadeira instituição argentina), em que cada integrante se esforça para inserir a maior quantidade de “boludos” numa mesma frase, com mais distintas entonações e os mais distintos significados, além de outros exemplares da curiosa fauna porteña boêmia.

Nestas horas, o ônibus 152, ele mesmo um boliche (é como eles chamam as boates aqui), transporta hordas e hordas de jovens festivos para os concorridos clubs de Palermo e Recoleta. Alguns ônibus noturnos aqui tocam música e tem luz negra (juro). Outro dia duas garotas com roupas provocantes, crises de riso que me faziam pensar que só podia ser efeito do THC – de tão frequentes e de tão banais que os motivos do riso eram – convidavam todos os passageiros homens pra uma festa. Um grupinho de nerds esboçava sorrisos contidos e algo constrangidos, e internamente, tenho certeza que se arrependiam de não aceitar o convite de forma tão assertiva quanto este tinha sido proferido. As garotas insistiam que quando a parada delas finalmente chegasse, todos os presentes ficariam instantaneamente entediados. Acho que elas tinham razão.

Noite adentro, a Santa Fe pode ser um porto seguro: me alcança até lá, que de lá eu pego um ônibus. E se esse ônibus for o 152, é bem possível que esteja cheio.  Quanto mais avançada a hora, mais eu desacredito nessa possibilidade, mas ela sempre se confirma! E na proliferação de pequenos centros, tão característica das metrópoles contemporâneas, a Santa não deixa de ser sinédoque de uma Buenos Aires. Isso se for possível pensar na sinédoque do recorte. Aquele, onde os serviços da prefeitura chegam com regularidade,  aquele que não se arrisca a ultrapassar as bordas do cartão postal, e por isso, recorte um tanto quanto asséptico e pouco real, algo careta, mas não completamente previsível.

Você pode simplesmente flanar, preferencialmente de noite, mas se estiver buscando um destino…se liga nos cinco spots escondidos ou nem tanto na Avenida Santa Fe:

bond-street

1.Bond Street: Logo no comecinho da Santa Fe, em plena Recoleta, está localizada a Bond Street, espécie de galeria do rock porteña, espécie de simulacro das ofertas de consumo das mais diversas subculturas dos jovens do hemisfério norte, aqui bem pertinho de você. Skaters, basqueteiros, pin ups, metaleiros, amantes da tatuagem, da erva que o passarinho não fuma encontram ali de um tudo, desde bugigangas pra cultivar, colher, enrolar e fumar o cigarrinho da referida erva, até discos, tênis descolados, camiseta de bandas várias pros babies, spikes pra botar em tudo e deixar seu visú mais punk, artigos militares, capacetes, óculos loucos, quadrinhos… Dá pra ficar horas lá, subindo e descendo os três andares, tem até uma cervejinha no último andar se não me engano, curtindo os grafitis enfim, entrar ali é como entrar na fonte da juventude. Ou seja, você entra normal e sai de tênis Vans, mochila, um skate debaixo do braço, uns piercings, umas tatuagens, pogando no hardcore e com uns dramas Dawson’s creeknianos na cabeça.

Av Santa Fe: 1670

Grand-Splendid-taringa

2.Ateneo Grand Splendid: Todos devem conhecer a livraria Ateneo da Santa Fe, está em todos os guias e listas das livrarias mais lindas em lugares mais inverossímeis mundo afora. É realmente muito incrível uma livraria dentro de um luxuoso teatro da década de 10 do século XX: você pode escolher qualquer título e sentar nos camarotes pra relaxar e ler. Tem um cafezinho também que fica no próprio palco, com cortinas de veludo vermelhas e tudo. Mas se o objetivo for comprar livros, eu sugiro que você vá até a esquina na livraria Cúspide, ou cruze a avenida e vá até a divina livraria da Editora Paidós, que edita clássicos e hits das ciências sociais e dos estudos de cine. É lá que você encontra, por exemplo, “A Imagem Movimento”, que até onde sei, não é mais editado no Brasil.

Av. Santa Fe 1850

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3.Galeria Patio del Liceo Se nesse trajeto você envelheceu um pouco, certamente irá se identificar mais com esta galeria que com a primeira. Patio del Liceo é um nome literal visto que a galeria funciona numa antiga escola para mulheres, a primeira da América Latina. Antes disso, no fin de siècle, teria pertencido a uma família abastada. Com o fim do liceo, foi ainda uma galeria comercial, que pouco tempo depois foi abandonada, e então gentrificada e ocupada por artistas, designers e demais empreendedores descolados. Em termos práticos, lá funciona um simpático barzinho que vende cerveja a preços módicos (para os padrões porteños que são altíssimos), tem um viveiro, uma loja de quadrinhos e ilustrações originais, muitas galerias de arte, studios de design, onde a juventude antenada se reúne.

Av. Santa Fe 2729

Jardín_Botánico_Buenos_Aires_Invernadero

4.Jardim Botânico Um oásis no meio de duas avenidas movimentadíssimas: a Santa e a Las Heras. Num dos setores, as espécies de árvores estão organizadas de acordo com sua origem geográfica: Ásia, África, Oceania, Europa E América, com destaque para a flora local. Conta ainda com cinco invernaderos. Também tem umas oficinas de horta, com técnicas de produção orgânica.

Av. Santa Fe 3951

5. Salón Pueyrredon Fica localizado no autodeclarado Palermo “Bronx”. Reza a lenda que antes era um apartamento que ficava na Avenida Pueyrredón (Uma das grandes avenidas que cruzam a Santa Fe. As outras são Nove de Julho, Callao, Coronel Diaz, Scalabrini Ortiz e Juan B. Justo). Foi fechado em 2014 e reaberto há pouco tempo. Ali tocam bandas do underground nacional e internacional. Por ali já passaram o Buzzcocks e o NOFX. Vá lá porque o punk rock não morreu!

Av. Santa Fe 4560

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