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Como disse uma querida amiga, conterrânea e ex-imigrante aqui na Argentina, o que se observa nas ruas brasileiras hoje, com muito espanto, é o reflexo de como as políticas de memória, verdade e justiça são conduzidas no Brasil desde o fim da ditadura – de uma criminosa lei da Anistia à manutenção de uma polícia militarizada e brutal. No caso, a quase ausência dessas políticas. O quase é cortesia da Comissão Nacional da Verdade instituída, sob muita oposição e com os trabalhos bastante limitados em 2011. A triste coincidência é que tais manifestações a favor da inconstitucionalidade de um golpe de estado acontecem no mesmo mês, de um ano que deveríamos ter muito claro em nossa memória coletiva: o convulsionado março de 64 que levou ao golpe militar no dia 1° abril, numa outra coincidência, essa vez além de triste, didática, já que nesse dia também se comemora (?)a mentira.

Não é mera coincidência, no entanto, que essa observação tenha sido feita por alguém que esteve aqui por um tempo, na Argentina, talvez o país que está mais à frente na recuperação da memória e na justiça por meio da punição exemplar dos perpetradores e executores dos crimes de lesa humanidade, na região, e por que não dizer, a este respeito, um dos países que está mais a frente no mundo.

Já no retorno da democracia essas políticas foram esboçadas e implementadas no governo de Alfonsín, para serem posteriormente interrompidas na era menemista e recuperadas e aprofundadas na era kirchnerista. Aos 30 anos do último golpe, no dia 24 de março de 2006, a data se converteu em feriado pelo Dia Nacional da Memória Verdad y Justicia, e desde então manifestações multitudinárias acontecem na Avenida de Mayo todos os anos, com a presença de militantes de diversos partidos políticos e organizações de direitos humanos, em que se destacam as Abuelas de Plaza de Mayo, que se dedicam a recuperar os netos sequestrados e apropriados pelo terrorismo de estado.

Para além do aspecto legalista, a política de memória, verdade e justiça a meu ver foi bem sucedida aqui porque de certa forma se expressou também num programa cultural. Ou talvez esse programa cultural, erguido a partir de um giro subjetivo, tenha se atualizado na política de memória, como demonstra Beatriz Sarlo em Tempo Passado.

Em Tempo Passado, a autora delineia uma matriz desse programa, a partir do olhar que muitos historiadores e cientistas sociais – inspirados pela etnografia – lançaram “sobre a bruxaria, a loucura, a festa, a literatura popular, o campesinato, as estratégias do cotidiano, buscando o detalhe excepcional, o rastro daquilo que se opõe à normalização e as subjetividades que se distinguem pela anomalia porque apresentam uma refutação às imposições do poder material ou simbólico.”

Os sujeitos normais também foram objetos de estudo, quando uma lupa foi posicionada sobre suas negociações, transgressões, ou o que Michel Maffesoli chama deliciosamente de “liberdades intersticiais”.

Com o crescimento dos discursos indentitários, o decrescimento dos macrorelatos totalizantes, sejam eles nacionais ou universal, o esvaziamento do espaço público, e tudo isso ampliado pelos meios de comunicação de massa, uma historia de “novos passados” dos “novos sujeitos” começou então a ser escrita. E nessa matriz, as histórias da vida cotidiana produzidas na academia ultrapassaram os muros das universidades e conquistaram então outros públicos, por seu flagrante interesse novelístico, como observa Sarlo.

É nesse contexto que a experiência ganha o protagonismo na atual tendência acadêmica, mas especialmente, no mercado de bens simbólicos. A razão do sujeito, até então mera ideologia ou falsa consciência, é restaurada, e em conseqüência, “a historia oral e o testemunho devolveram a confiança à primeira pessoa que narra sua vida (privada, pública, afetiva, política) para conservar as recordações ou reparar uma identidade ferida”.

E então esse programa se atualiza na política da memória, na transição democrática, em que os relatos das vítimas-testemunhas, completa Sarlo, desempenham um papel central na esfera jurídica, sendo a base probatória dos julgamentos do terrorismo de estado, mas transcendem essa esfera, alcançando importância na esfera da cultura, e impondo questionamentos sobre a experiência e os limites da memória, a representação, o visível, o dizível e o indizível.

O interessante é como essa política de memória ganhou forma no campo simbólico argentino a partir do parentesco: por um lado mães e avós que reivindicaram os filhos e reivindicam os netos desaparecidos e por outro lado, os filhos dos desaparecidos que encontram as mais diversas estratégias para fazer circular seus discursos identitários. Nos dois casos, os pilares sobre os quais esses discursos se erguem são a interrupção e a ausência.

Ana Amado atenta para os recursos dramáticos que mães e avós recorreram, da criação teatral, audiovisual, musical, midiática, publicitária que tiveram continuidade nas propostas da agrupação HIJOS que “depositou no visual, o peso de suas estratégias de identidade e memória, por meio de vídeos, filmes, fotografias e diversos modos de intervenção cênica”.

Ainda no Brasil me surpreendia a quantidade de filmes argentinos que tematizavam a ditadura. Ao menos os filmes que lá chegavam. Já aqui pude ver não só que de onde saíram aqueles, havia muitos mais, como dentro desse gênero, havia distintas matrizes. Uma dessas matrizes concentra os relatos dos filhos interrompidos pelo desaparecimento dos pais. E um dos mais impressionantes relatos dessa matriz é sem dúvida o de Albertina Carri, que filma seu périplo, iniciado no bairro onde vivia com a família à época do sequestro dos pais, identificados como “los rubios” (os loiros) pelos vizinhos denunciantes.

Mas definir o filme a partir desse ponto de partida seria reduzi-lo ao ignorar outras linhas que se cruzam nesse ensaio-documentário. O filme poderia ser mais bem definido a partir da impossibilidade com a qual está o tempo todo esbarrando para recuperar uma história da qual se foi brutalmente privado. E para não deixar dúvidas, Albertina coloca uma atriz para interpretá-la: uma documentarista em busca de realizar um filme sobre o desaparecimento dos pais. O seqüestro é aqui reencenado com bonecos Playmobil. E poderia ser diferente? Talvez essa tenha sido a forma mais honesta de mise en scene que Albertina encontrou, para conciliar o eu do relato ao eu experiencial. Mas parte da opinião pública não interpretou assim. O INCAA (Instituto Nacional de Cinema e Audiovisual Argentino), o poderoso instituto que financia e distribui os filmes nacionais rejeitou taxativamente Los Rubios alegando que Roberto Carri e Ana Maria Caruso (os pais de Albertina)- dois intelectuais comprometidos dos anos 70 – merecem que o filme seja realizado, mas de outra maneira. Essa citação aparece no próprio filme que registra os conflitos e as ambiguidades inerentes ao processo de levar às telas um projeto assim.

Na mesma época praticamente, Nicolas Prividera estreava o filme M sobre sua mãe, uma funcionária do Instituo Nacional de Tecnologia Agropecuária, o INTA, sequestrada em sua casa dias depois do golpe de 76. À diferença de Los Rubios, em que a memória é narrada como ficção, a ausência aqui é substituída pela imagem da mãe em vídeos caseiros, fotografias, depoimentos das pessoas que a conheceram. Nicolas é mais que um ator, é personagem central da história que não só recupera a memória, mas também investiga, interpela, e realiza espécie de inquéritos aos órgãos públicos e organizações de direitos humanos. Duas opções distintas que sacudiram as discussões sobre a memória, a identidade, e a possibilidade de documentar, reencenar ou ficcionalizar a experiência a trinta anos do golpe.

Para além dos documentários, é digno de nota que os dois Oscars concedidos pela academia à Argentina tenham chancelado dois filmes sobre a ditadura, Historia Oficial, de Luis Puenzo, ainda nos anos 80 na era da transição democrática (que completou 30 anos esse ano) e El Secreto de sus ojos, de Campanella, que se passa nos anos anteriores ao golpe, quando uma atmosfera sinistra já se disseminava por essas coordenadas (coincidentemente o concorrente de peso naquele ano utilizava um expediente parecido, White Ribbon de Michael Haneke, sobre os anos que precederam a I Guerra num povoado da Alemanha). Infância Clandestina foi talvez o último filme que me lembro que causou sensação por aqui, e também em festivais ao redor do mundo, ao mostrar a clandestinidade daquele período através dos olhos de um garoto, filhos de dois militantes.

Quando cheguei muitas foram as exposições fotográficas que vi opondo duas fotos com a  mesma locação e com quase as mesmas pessoas, em que ao menos uma dessas pessoas estava presente em uma das fotos e ausente na outra, seja no Teatro San Martin ou ainda no Centro Cultural Haroldo Conti (a ex-Esma, Escola de Mecânica da Armada destino final de muitos sequestrados). Me surpreendia ver ainda ver no jornal Página 12 fotos dos desaparecidos. Mas talvez o evento midiático de maior dimensão que me lembro, além da morte de Videla, foi a recuperação do neto n° 115 pela organização Abuelas, coincidentemente o neto da fundadora Estela de Carlotto. Os jornais narravam como folhetins como Estela recebeu a notícia, como recebeu a mensagem emocionada da presidenta, como a organização tentava proteger a privacidade do neto recém descoberto, em vão, uma vez que em pouco tempo todos sabíamos que era um músico discreto que vivia na zona rural e sabíamos também algo do primeiro encontro dos dois, aparentemente longe dos holofotes.

Nesse tempo em que estou aqui tento digerir toda essa forma de resgate e circulação da memória em que as instâncias individual e coletiva se mesclam até não poderem mais se dissociar, em contraposição a uma forma aparentemente inconsciente (quem se beneficia é a pergunta) de esquecimento impessoal e ao mesmo tempo coletivo tão vigente num país como o Brasil que não sabe lidar com sua história. Remontar à escravidão no caso do Brasil não é mero historicismo cronológico, se pensamos em como os resquícios de uma sociedade escravagista se cruzaram e se cruzam com o terrorismo do estado, seja esse de exceção ou mesmo do estado supostamente democrático, onde uma polícia treinada para a guerra sobe o morro em tanques como um rolo compressor e onde negros são desaparecidos em plena luz do dia. Não se pode esquecer que Caetano Veloso falou que os gritos que escutava nos porões da ditadura quando esteve preso eram os gritos que saiam dos corpos negros torturados

Então às vezes me pego pensando na possibilidade de um tempo suspenso, interrompido aqui, que não se move até um futuro, um tempo que gira em torno à catástrofe que interrompeu o passado, à semelhança e numa escala reduzida do que Karl Erik Schollhammer argumenta a respeito da cultura traumática contemporânea, em que a catástrofe já não é o choque da modernidade e sim, o final, perpétuo desastre de Auschwitz e Hiroshima que alteraram a percepção do tempo.

Mas às vezes esse pensamento se dissipa, quando compreendo alguns níveis em que essa política da memória transcende a museificação e traumatofilia e se converte numa força vital na Argentina contemporânea, ao propor o cruzamento transtemporal de eventos passados e de eventos recentes, e talvez o caso Mariano Ferreyra e o caso Luciano Arruga sejam os mais ilustrativos nesse sentido. Assassinados em 2010 e 2009 respectivamente, o militante do Partido Obrero Mariano Ferreyra e o adolescente Luciano Arruga (desaparecido por cinco anos) estão “presentes” nas marchas, tal qual outros desaparecidos do regime de exceção, com a diferença de que essas “presenças” escancaram ao mesmo tempo outras questões e uma incomoda continuidade de crimes políticos, uma vez que tais questões se atualizam no regime democrático, já que apontavam mais uma vez o estado, não mais o oficialmente de exceção, como autor.

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