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O novo cine argentino apresentou ao mundo toda uma outra paisagem geográfica e humana para além dos limites da capital federal Buenos Aires e seus habitantes descendentes de italianos e espanhóis. Esse movimento de fora pra dentro foi empreendido em diversas cinematografias nacionais num momento em que a identidade emergia como um aspecto central, tanto como uma resposta à homogeneização cultural da globalização, como uma adoção de um discurso um tanto quanto ingênuo dessa mesma empresa globalizante, na forma de  um multiculturalismo de mercado, em que a etnografização do consumo se alastrava para além do artesanato e da comida étnica, demandando produtos audiovisuais de terras e sotaques distantes.

O emblemático “Pizza Birra y Faso” que inaugurou essa nova proposta, sim lançou suas lentes sobre a capital, mas para enfocar os marginalizados, excluídos, aqui chamados cabezas (por cabecitas negras) que vagavam sem destino, entre pequenos furtos, sequestros, brigas na bailanta (seriam como os bailes funks daqui, só que cumbia) e filas de emprego, aspectos sociais que já se manifestavam com intensidade no meio da década do delírio da paridade peso-dolar.

Pizza, birra y faso

Trapero por sua vez, explorou o conurbano, ele mesmo vindo do oeste, e seus corpos que carregavam em si o peso da crise, circulando pelas ruas pouco glamorosas de uma paisagem que não cabe no cartão postal. Lucrecia (Ah Lucrecia, estamosà espera de um sinal para continuar a ter fé) investiu sobre a paisagem úmida e asfixiante do norte do país, onde a crise identitária argentina se faz mais explicita, com uma elite branca decadente se relacionando de forma hostil e ao mesmo tempo erótica com os indígenas, que a narrativa positivista tenta a todo custo apagar da história nacional.

La Ciénaga

Depois está Lisandro Alonso e seus tempos mortíssimos dissecando a paisagem selvática ou gelada do fim do mundo.

Los Muertos

Liverpool

Na estrada que conecta Mar de Ajó a Pinamar, G. me comentava que todas essas paisagens de certa forma propõem um exotismo buscado pela classe média branca das escolas de cinema de Buenos Aires, mas que a paisagem da costa bonaerense, por um lado, pouco familiar à boa parte desse grupo e por outro, não exótica o suficiente, foi, de certa forma, esquecida.

O conglomerado de pequenas cidades costeiras ao sul de Buenos Aires aparece em parte dos relatos da classe média como memória da infância, quando a família veraneava nas praias extensas, ventosas, não tropicais, com o mar com temperatura fria e de cor amarronzada. E só. A classe média/média alta prefere buscar as praias tropicais do vizinho no verão, os cerros patagônicos para esquiar no inverno, e claro a Europa durante todo o ano. O Norte atrai ainda um perfil mais aventureiro, daqueles que buscam o exotismo no antiplano, com suas montanhas coloridas, comida típica, e paisagem humana mais diversificada. Dessa forma, a costa fica relegada às famílias sem muito capital, seja ele financeiro, cultural ou social, aos aposentados ou aos muito jovens (a pendejada, ou a pirralhada deles) em busca de noites de festa a uma distancia segura dos pais que permanecem na capital.

Quando enumero os locais que conheço aqui, as pessoas se constrangem um pouco quando menciono a costa. Quem vem do Brasil, certamente não pode desfrutar as praias bonaerenses, sugerem eles. Não são as praias cujas fotos descansam a tela de um computador por supuesto. Mas propõem um outro tipo de experiência introspectiva e algo melancólica. Os quilômetros e quilômetros de extensão de areia, o cais avançando sobre o mar e logo ali a imensidão dos pampas, com sua vegetação discreta, a cola de zorro, que é uma planta com penugem dourada e etérea.

Mas aqui é necessário contextualizar: cada cidadezinha tem o seu perfil, de forma que algumas sim estão mais voltadas para as escapadas turísticas da classe media/média alta tais como Pinamar, Mar de las Pampas, Cariló – quanto mais pinheiros houver, mais cheto (playboy) será o destino – enquanto Mar del Plata sedia o mais tradicional festival de cinema do país e ostenta os resquícios de um passado em que era polo de veraneio dos privilegiados. Mar del Plata é emblemática também por ter sido o cenário perfeito para uma das mais ousadas e interessantes estratégias peronistas: o estabelecimento de um “turismo social”: a democratização do gozo do ócio às classes trabalhadoras. Os hotéis sindicais se alastraram por toda a costa bonaerense, e lá estão até hoje, em localização nobre, à beira mar. Ao mesmo tempo, a aristocracia migrou para Punta del Este, que se converteu no point do jet set sul-americano.

E estão as outras praias, cenários do turismo de massa no verão que se convertem em espectrais cidades abandonadas no outono e no inverno. Quando estive a primeira vez em Mar de Ajó,os sinais do outono já haviam modificado a paisagem: os dias azuis alternados aos dias cinza, as arvores semi-secas e o vento frio. Na Avenida Comercial, as lojas de souvenirs, de roupas, os cafés, o comércio praticamente todo fechado. Apenas um centrinho de diversões permanecia aberto, com suas maquinas coloridas, iluminadas e barulhentas, emitindo sons 8 bit pelos quatro quantos, enquanto um garoto seguia lacônico as instruções da tela para tocar os acordes da musica no Guitar Hero. As casas e apartamentos para alugar, idem, todos fechados. Apenas o essencial abria as portas para abastecer os habitantes permanentes da cidade. Um naufrágio no passado inspirando histórias de terror, relatos da Festa da Corvina Rubia, o peixe típico da cidade, que acontece na primavera, e nas imagens dos barcos encalhados, o oxido marcando silenciosamente a passagem do tempo. Tudo isso me deixou discretamente fascinada e curiosa pela vida que acontece ali, como o negativo da foto de verão, ou ainda por aquela vida oculta que aparentemente se desvanece com o fim da temporada.

Me fez pensar então no primeiro livro de Roberto Bolãno, A pista de Gelo. A história se passa em Z, um balneário catalão frequentado por famílias de trabalhadores e operários do norte da Europa, onde os desempregados ali desembarcam em busca de um emprego temporário pra tentar sobreviver aos meses do inverno: ilegais, drogadictos, lumpenaje, em suma, vagabundos que durante a estação mais quente do ano, fazem com que a cidade funcione, bem ou mal, para os turistas. Em Z convergem, portanto, os heróis e vítimas da pós-modernidade, de acordo com a definição de Bauman: os primeiros, turistas, possuem os meios para se mandarem quando as coisas não saem como o esperado, ou, ao menor sinal do tédio, partindo para uma nova aventura, os segundos, os vagabundos, estão condenados ao deslocamento, não por prazer, mas para sobreviver: “são os restos do mundo, que se dedicam ao serviço dos turistas”. Um como alterego – “o escuro e sinistro fundo contra o qual o eu purificado pode brilhar” – do outro. Z como alterego de si mesma, de acordo com a estação do ano. Enquanto os turistas circulam, mergulham e passam o bronzeador sobre as peles vermelhas, uma vida subterrânea acontece no camping, protagonizada não por aqueles que veraneiam, mas pela comunidade que enseja uma fraternidade precária dos que ali trabalham e tentam sobreviver. A vida acontece também num palácio abandonado, nos arredores da cidade, onde uma pista de gelo é construída por um funcionário da prefeitura, com dinheiro desviado da mesma, para conquistar uma patinadora jovem, bela e popular, que por sua vez, vive uma vida dupla como uma Laura Palmer mediterrânea. E assim como na série de David Lynch, um crime expõe os mistérios e as feridas do pacato povoado de vida igualmente dupla.

Enquanto Bolaño investe sobre os vagabundos – uma cantora de ópera que ganha uns trocados cantando em terrazas, uma jovem drogada doente e fleumática, uma faxineira senegalesa, o sudaca administrador do camping, um mexicano ilegal sem muitas perspectivas em Barcelona – o pós-novo cine argentino se debruça sobre os turistas. Vi apenas três filmes com essa geografia, e dois deles eram dirigidos e protagonizados por mulheres, e o terceiro, ainda que dirigido por um homem, propõe uma sensibilidade feminina: Ana Katz e Laura Citarella e seus contos do feminino errante e deslocado pelas praias não topicais da província de Buenos Aires. Em Tan de Repente, Lenina (Lenin) e Mao sequestram e libertam Marcia (Marx). A paisagem que emoldura essa viagem de formação é San Clemente. Numa bela sequencia, os três corpos femininos correm livres em direção ao mar. Me remete aos belíssimos filmes de Maya Deren. Mas é apenas essa sequencia, as três meio lésbicas, meio punks depois seguem viagem para Rosario. De forma que Uma Novia Errante e Ostende são os únicos filmes que vi, erguidos sobre as possibilidades estéticas e narrativas da costa.

Em Uma Novia Errante (Ana Katz, 2007) um casal discute a relação num ônibus a caminho de um fim de semana de descanso em Mar de las Pampas. Ela se confunde e desce na parada errada. Ele continua no ônibus. Ela não o encontra no hotel, espera por ele e telefona para receber notícias, sem sucesso. Quando ele enfim atende, ela prefere não captar os sinais da frieza do outro lado, e insiste: “pensei que íamos acordar tarde”. De forma desajeitada tenta curtir o fim de semana sozinha, o primeiro de alguns que virão após o previsível término da relação: convidada pelos funcionários do hotel, vai a um lual, onde canta, fica bêbada e tenta seduzir o recepcionista. Conhece um homem que deixou Buenos Aires pra viver ali, entre acolhedor e acossador. Em boa parte do tempo ela tenta escapar às segundas intenções da única companhia. Não deixa de ser mais um estudo mais sobre essa personagem forasteira, presa  num interlúdio, entre o fim de uma relação e o futuro incerto, que sobre a paisagem. A paisagem de certa forma faz aflorar algo de tragicômico, patético e infantil – ela é “resgatada” pelo pai e pela irmã – dessa subjetividade.

Ostende, de Laura Citarella vai pelo caminho oposto, mas utiliza o mesmo expediente do olhar intruso: é através da forasteira que registramos o patético dessa geografia. O olhar intruso não seria a priori uma forma descartável de registrar essa paisagem. Mas o olhar intruso aqui não tem a menor curiosidade ou o mínimo interesse: a garota blasé que ganha como prêmio um fim de semana num hotel na praia que tem o título do filme, se entendia com o vento, o relato naif de um garçom que tem pretensões artísticas (numa longa cena ele narra um roteiro que está escrevendo), a torpeza da funcionária do hotel que não sabe resolver o problema da reserva do quarto. Ela então decide engajar-se numa empresa detetivesca, seguindo os passos de um homem idoso que está hospedado no mesmo hotel com duas belas jovens. Citarella filma em longos planos a praia, mas parece não se interessar por nada que vê ali, tal como o olhar da protagonista sempre buscando algo que é exterior àquela paisagem. O trio que claramente não é dali e talvez por isso, foge ao clichê que protagonista e diretora tentam encaixar os locais: os forasteiros são os únicos capazes de proporcionarem uma experiência extraordinária, ou ainda, a única experiência digna de registro após a partida dos turistas.

Diante dessas opções estético-narrativas, eu não deixo de ansiar por um olhar assim como o de Bolaño, lançado sobre a costa bonaerense: a vida que ali pulsa inverossímil em tom menor em segredo quando os turistas vão deixando a cidade em função do calendário escolar, quando os dias vão ficando cada vez mais curtos e as noites cada vez mais longas e frias.  A fauna noturna de desajustados que se reúne no único inferninho da cidade: os músicos, os pescadores, ermitões e as adolescentes com maquiagem pesada, saias curta e saltos altos. E na atmosfera da desolada paisagem pós-sudestada (“uma rápida rotação dos ventos do sul ao quadrante do sudeste que satura as massas de ar polar com umidade oceânica”) as fantasias nostálgicas da última temporada, crimes quase perfeitos, desejos, silêncios.

Em tempo: Pela primeira vez fui ao Pantalla Pinamar, un encuentro cinematografico argentino-europeu, neste caso o décimo primeiro, que acontece todos os meses de março no balneário. Uma frequencia curiosíssima e monocromática de idosos branquíssimos. Na programação os queridinhos Dois dias e uma noite, dos Dardenne e Leviatã, de Andrey Zvyagintsev, que eu não vi. Mas vi um longa canadense, o delicado Felix et Meira, e um compendio de curtas, intitulado Histórias Breves, projeto financiado pelo INCAA e que funciona como uma vitrine para novos realizadores. Tive a oportunidade de ver o querido amigo Diego de Paula, no curta “Vendido”, de Lito Muravchik. Destaque para “Trabajo industrial “, de Gerardo Naumann e “Diamante Mandarin”, de Juan Martín Hsu. Me deu uma saudade das tardes no Teatro Nacional Claudio Santoro de Brasília, curtindo os curtas em 16mm do Festival de Cinema…

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