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O funcionário gente boa do hostel recomendou uma banda chamada La Renga, você foi ouvir e sentiu vontade de escalar o Obelisco e se jogar lá de cima? O colega da Universidade disse pra você escutar Los Redondos e você achou mais agradável estar na linha D do metrô  às 18h no auge do verão? Ouviu Las pelotas e teve uma ótima ideia: cortar as suas próprias?

Calma! Seus problemas acabaram!

Com o Guia definitivo das boas bandas argentinas você pode curtir os sons que embalaram e embalam os hermanos, participar das conversas, cantar no boliche no momento do pop argentino e brilhar nas rodinhas de violão cool.

Os primórdios

Diferentemente do Brasil varonil onde sempre se volta aos anos 60/70, época em que Tropicália pautou a cultura pop do patropi deixando herdeiros até os tempos atuais, aqui na Argentina o bagulho é outro. O momento que eles mais lembram com nostalgia (sei que são muitos!) é o momento da volta da democracia, no início dos anos 80. Reza a lenda que além do climão de suspeita generalizada, da pulsão tanática com a máquina de morte do estado a todo vapor, também houve uma repressão sexual muito intensa, imagine que até o feriado do carnaval foi suprimido do calendário! Daí que em 83 não só caiu a ditadura, como também algumas travinhas sexuais, permitindo assim a juventude expressar sua picardia, sobre esse tema, voltaremos mais tarde

Ainda que não seja tão totêmico nessas paragens, os sixties também deixaram seus rastros por aqui. Dentre as bandas referentes desse período, o Arco Íris ostentava um guru espiritual e dispunha de uma comunidade hippie. Um dos integrantes era o jovem Gustavo Santaolalla, que você conhece como compositor de trilha sonora de uma penca de filmes: On the road (Walter Salles), Amores Perros, Biutiful, 21 gramas, Babel (todos do Iñarritu), Brokeback Mountain (Ang Lee), My blueberry nights (Wong Kar Wai) etc. e tal… Violãozinho, cantoria assim meio solene reverenciando assim a naturaleza, os mistérios do mundo e demais possacreísmos de toda ordem, eu, se fosse você, pulava essa parte.

Mais ou menos pra essa época surgiu uma banda que vale mais a pena conhecer: a banda Almendra, a primeira do Spinetta, el Flaco. Já mais folk, algo assim meio Byrds, mais interessante, dialogando de forma inventiva com o espírito do tempo. Duraria bem pouquinho e o Spinetta ia investir em outro projeto: O Pescado Rabioso. Além desse nome gênio, essa banda tem pelo menos um disco bem genialzinho, de nome algo pretensioso, mas que provoca um afeto instantâneo: Artaud. Nesse disco, Spinetta investe numa referência mais blusy e intimista. O resultado é um compêndio de pérolas como Todas las ojas son del viento, Cementério Club (com um riff delicinha), La Sed Verdadera, Bajan (depois regravada pelo Gustavo Cerati, incluída no melhor disco do pop argentino ever). Mas o disco é todo bom, climático e aconchegante, combinando potência e fragilidade ao mesmo tempo.

Gravou uma penca de discos el Flaco e morreu em 2012. É celebrado como um dos principais referentes do rock aqui. Mas deixou um herdeiro: Dante Spinetta, um doidinho que estava à frente do projeto Illya Kuriaky and the Valderramas, do qual falaremos mais adiante.

E por falar em doidinho…a primeira banda do longevo  Charly Garcia, O rockstar argentino, apareceu também no fim dos anos 60, sob o nome de Sui Generis, meio hipporonga, meio opera rock e viriam outras: Máquina de Hacer Pájaros e Seru Girán, já adentrando os seventies.  Esta última, uma espécie de Yardbirds argento (calma! Deixa eu explicar!), no sentido que músicos grosos (o “bafo” daqui) saíram daí: além do Charly, o Pedro Aznar. Se você tiver a pilha progre (nesse caso, não, progressista – vide incomepletismos -, e sim, PROGRESIVA) se joga. Caso contrário, corra sem olhar pra trás.

Correndo por outro lado, contudo, está um outro tipo de doido, Norberto Aníbal Napolitano, o Pappo. Lembrando que essa semana fez 10 anos da morte deste, num acidente de moto. Passou por uma banda chamada Abuelos de la Nada, e depois esteve à frente de Pappo’s  Blues e Riff, esta ultima, interessantíssima,na linha blacksabbahia, alicecooperniana sem a carnavalização do make, motorheadniana sem a afetação de Lemmy, mesclando blues,  hard rock e heavy metal  em chave periférica suburbana terceiromundista dialogando com as melhores bandas do gênero, acenando pra toda um cultura mortorcycle club hell angel, entendeu? Não? Escuta agora o disco com o sugestivo título “Ruedas de Metal”:

Clássicos

Bom, chegamos no que os argentos consideram sua belle époque ( A passagem pelos 70’s foi rápida, eu sei, qualquer coisa, joga na no Google tudo isso, e aprofunda.) Yo que sé, diriam eles próprios, esse lance de uma sonoridade específica é algo muito pessoal. Aqui, como já antecipei, tem todo esse contexto afetivo, de volta da democracia  e tal, e talvez, um período em que uma cultura pop jovem  debochada – num país que é algo solene e nostálgico – tenha se estabelecido com mais força. E quem melhor expressou isso foi…

Soda Stereo

Um fenômeno da língua hispana, um estilo de vida, e ficamos injustamente de fora. Nem tão de fora, uma vez que o Capital Inicial fez uma única coisa útil na vida e regravou De Musica Ligera. Que na real, nem ficou tão ruim. Mas ainda dá tempo de ver o que você perdeu.  Conta a historia que essa banda surgiu porque quem seria o baterista, Charly (não o Garcia, o Alberti) tava afins da irmã do Gustavo, e ligava na casa dos Cerati insistentemente.  Como ao Gustavo nunca caiu bem esse estereótipo machista do irmão ciumento, ele puxou papo com o admirador da irmã e descobriu que era baterista e ele precisava dum baterista pra tocar na banda dele com o Zeta Bosio, e fez-se a luz, a mágica…

Com influência da new wave e especialmente do Police, o Soda lançou o primeiro disco homônimo em 84. Umas letrinhas de duplo sentido, um deboche, uma atmosfera festiva, descompromissada, bem ochenchosa,  eram a tônica de musicas como Vitamina e Por que no puedo ser del Jet Set? Eu não sou lá muito fã da sonoridade dessa época em geral, mas claramente o Soda inaugurava uma era mais arrojada na música argentina e latino-americana, mas para além disso, inaugurava uma estética. Uma estética que involuntariamente estabelecia uma relação dicotômica com uma outra estética, proposta pelos Rendondos e o band leader Indio Solari. O Soda, resignificando seu leque de referências transnacionais cool, com seu aparente descompromisso, hedonismo e frivolidade – aqui que fique bem claro que é só aparente – sua autoironia, esse frescor de não levar-se à sério e os Redondos mais atentos à uma cultura nacional e popular (o Nac & Pop), seu papo retíssimo, seu discurso seríssimo e sisudíssimo, suas mensagens crípticas, seu som que já nasceu velho e ultrapassado, e a voz irritantemente impostada de seu vocalista, Indio Solari. Essa oposição não era tanto alimentada por Cerati ou o Indio Solari (espécie de um Renato Russo aqui, pense, inspirando messianismo e tânatos – ainda hoje os shows do Indio são marcados por tretas mil), mas pelos fãs de ambos, engajados nas distintas posturas que as bandas assumiam e talvez pela própria cultura aqui que impõe certa épica fundada sobre o antagonismo.

O fato é que o som do Soda foi se metamorfoseando e ficando cada vez mais alinhado com tudo de interessante que se fazia no pop rock no mundo, e foi ficando cada vez mais sofisticado, mas sin perder la ternura (será Che Guevara um raro espécime de argentino pós-dramático?), incorporando elementos do rock alternativo e do shoegaze, mas também incorporando a musica eletrônica, de forma deliciosa e absurdamente natural. Nessa fase gravaram os fantásticos Sueño Stereo:

Dynamo:

E mais pra frente, Bocanada

A banda foi quebrando records e mais records, conquistando a América Latina do México à Tierra del fuego convocando centenas de milhares a estádios que levam Monumental até no nome, incursionando pelos States. Era a sodamania.

Eu fui conhecer lá por meados dos anos 90, época em que chegou a TV a cabo lá em casa e tínhamos esse canal fantástico chamado MTV Latina. Certa vez vi um clipe que fui saber mais tarde foi filmado no Planetario:

Aquilo ficou em stand by e quando cheguei aqui, entrei em certo desespero como descrito no início desse guia, e um amigo mais versado no rockhispanismo me recomendou o disco Amor Amarillo, aquele que é o melhor disco argentino ever. É o primeiro disco solo do Cerati, bonito de chorar, lindo de morrer. Sua poética etérea e ao mesmo tempo densa, estranha e sexy inaugurou pra mim uma outra Argentina, justo aquela que eu não conhecia, mas sonhava com.

Cerati gravaria outros discos, em 2007, o ultimo deles, Fuerza Natural, meu segundo favorito, depois de Amor Amarillo.

Quis o destino que poucos meses depois que eu chegasse em Buenos Aires, ele entrasse num coma e fosse lenta e nem tão discretamente deixando esse mundo, de forma que nunca pude ver a magnitude de de Cerati ou do Soda Stereo ao vivo. Tá que eu não sou nem um pouco chegada em shows, custou admitir, mas enfim… Mas esse eu realmente queria ir! Na semana em que morreu poxa, sei lá, brotou aqui todo um sentimento de “estamos no sul do hemisfério sul do mundo, isolados e afastados de todos, muitos já se foram”, uma espécie assim de orfandade. Naquela ocasião fui ver umas bandinhas (em show pequeno eu ainda vou, mas escuto do fumódromo) num centro cultural maneiro (o Vuela el Pez, falarei dele em outro momento) e todas fizeram um tributinho, tocando a mesma música, escuta só pra entender porque!

Mas a belle époque do pop rock argentino ainda produziu outras bandas bem expressivas, algumas bem boas na linha do Soda, outras mais chatonildas na linha Los Redondos:

Virus

Responsável pela chegada da modernidade no pop Argentino, ao lado do Soda Stereo, tinha uma proposta parecida: igualmente xóvem e irreverente, hitmaker, ainda mais mega pop chiclete, e mais sexualizada. Mais até que o Soda, essa banda me transporta prum boliche em Baires nos 80, com roupas com aquelas padronagens características, os brincos de plástico coloridos e geométricos, bailando num boliche, cujo letreiro é de neon, sofrendo o amor não correspondido (essa banda fala muito disso). Não à toa, hits do Virus foram versionadas para a trilha do filme Muerte em Buenos Aires, uma pérola da contemporânea cinematografia local, que não tem a presença do Ricardo Darín, mas do filho, o delicinha Chino Darín (que nesse filme faz o papel da femme fatale, nesse caso, homme fatale, reforçando a minha teoria que as femmes fatales argentinas são na verdade, os caras). Esse filme se passa na Buenos Aires dos anos 80, quando um crime abala a aristocracia porteña e o mundinho gay da lendária boate Manila. Os arranjos das músicas foram feitos pelo talentoso Daniel Melero, que não sei muito bem de onde veio, nem pra onde vai, mas está sempre associado com uma galerinha do bem.

Escuta só o astral do terceiro disco do Virus:

E a versão da romântica “Que hago en Manila?” pro filme Muerte em Buenos Aires:

Sumo

Sei que num post como esse não posso evitar falar do Sumo, uma instituição do rock argentino, uma banda que está longe de ser significativamente chata como Los Redondos, mas que me parece superestimada. Ainda assim, tem lá o seu encanto. A história do Sumo começou quando o romano Luca Prodan, alma da banda, deixou Londres pra fugir da heroína e desembarcou aqui na Argentina, no começo dos 80. A mítica de Prodan envolve uma passagem pela mesma escola que freqüentava o príncipe Charles, onde teria dado uma porrada nesse. Folclore à parte (ou não), em terras argentinas, o primeiro disco saiu em 85, muitas das músicas eram em inglês, com um climão meio dark do postpunk. A influência do Joy Division é tão evidente que esse primeiro disco oficial se chama “Divididos por la felicidad” (o primeiro não oficial tinha um nome mais maneiro, “Corpiños  – sutiens – en la madrugada). Depois vieram mais três. Os melhores momentos do Sumo são sem dúvida aqueles em que investiam no reggae. Escuta só o hit No tan distintos:

Além dessas e de outras várias bandas que surgiram nesse período, os medalhões também tiveram seu lugar, se adequaando aos novos tempos. Foi o caso do Charly Garcia que gravou a auto-irônica “Demoliendo hoteles”. Uma crônica apurada sobre aqueles anos:

Os anos 90 são tão gongados, quanto os 80 são celebrados aqui. Fim da ditadura, Maradona ganhando a copa em 86 por um lado, e por outro, menemismo, neoliberalismo selvagem, a paridade do dólar sustentando ao mesmo tempo o delírio e desigualdade. Até dá pra entender… Mas que essa treta toda inspirou o surgimento de bandas bem mais legais… isso não dá pra negar. Mas essa é outra história.

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