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Quem vem à Argentina provavelmente já ouviu falar do drink nacional, o Fernet cola. Junto com o vinho, o alfajor e o doce de leite, a garrafa de Fernet Branca (a marca mais tradicional) talvez seja um dos itens buscados por quem quer levar um pouquinho dos sabores argentos pra casa. Da família dos aperitivos, o Fernet é na verdade italiano. É possível que tenha desembarcado na Argentina na bagagem dos imigrantes europeus, especialmente tanos, caiu no gosto dos cordobeses e se transformou em paixão nacional. Tem uma cor escura, ao princípio me fazia lembrar o Biotonico Fontoura – que tomei anos a fio na tentativa de engordar – e um sabor amargo. Confesso que particularmente não sou muito fã dos drinks cola, com exceção do Long Island Ice Tea, mas há relatos de que o Fernet soda pode ser interessante.

Mas para além da instituição Fernet, há todo um fantástico mundo de aperitivos na Argentina, que ultimamente ocupa um lugar de destaque na cocteleria local. No Brasil, talvez estejamos mais familiarizados com o Martini ou com o Campari. Um amigo me contou que o mercado de aperitivos em terra brasilis foi invadido pelo Aperol, com sua cor neon. Aqui, existe uma ampla variedade de aperitivos tanos, mas também os nacionais Pineral, Hesperidina, Amargo Obrero disputam de igual para igual com os primeiros, nos bares badalados da cidade.

Nem sempre foi assim: assim como no Brasil acho que os aperitivos eram um pouco estigmatizados como ultrapassados, gerando entusiasmo mais entre os coroas que entre os trend setters.  Em todo o caso, a cultura dos aperitivos, mesmo em sua versão geriátrica, me parece um dos mais charmosos traços da cultura Argentina. Um toque de joie de vivre, ou melhor ainda, sua versão italiana, o dolce far niente, experimentando não só pelas classes abastadas. Roberto Arlt quando esteve no Rio ainda na primeira metade do século XX destacou esse traço como distintivo entre as culturas argentina e brasileira em suas Aguarfuertes cariocas: os operários porteños terminavam seus expedientes, colocavam a melhor roupa e iam flanar pela cidade, curtir um fervo, uma boemia, enquanto os cariocas se recolhiam após uma jornada proletária e extenuante de trabalho.

A clássica receita é uma dose acrescida de soda, com umas gotinhas de limão, mas os aperitivos permitem uma infinidade de deliciosas possibilidades. São muitos os bares atentos a essas possibilidades. Abaixo uma listinha muito particular de lugares pra apreciá-las:

Doppel

Na esquina do Doppel não tem muita luz e então não dá muito pra registrar o bar. Fica longe do fervo palermitano e isolado do fervo de San Telmo (Av. Juan de Garay, já no fim do bairro, a caminho da Boca). A porta não está aberta, mas é só expor ali a sua carinha e a sua figurinha que alguém vem amavelmente te abrir. O bar tem opções de mesas, mesas altas e a barra, um ar assim art deco, Republica de Weimar style, as paredes de madeira são “limpas”, com pouquíssimos e criteriosos quadros, se escuta um bom jazz, a iluminação é sob medida e o bartender super perfeccionista (o melhor que te pode passar) e está vestido a caráter, com suspensório e gravata borboleta.

doppel

Frequentado sumamente por grupos discretos de amigos, casais e coroas, não tem aquele climão de levante (flerte), nem tom de voz alto. A carta conta com uma excelente oferta de tragos elegantes, distribuídos em “Amargos”, “Refrescantes”, “Cremosos”, “Frescos”, “Exóticos” e etc., em que os aperitivos se combinam sutilmente com ingredientes como noz moscada, clavo de olor quemado, tabasco, mel, açúcar negra, gengibre … Pra acompanhar, tem um combo de batata com creme de alho, batata doce com molho de mostarda e mel, e mandioca com molho de tomate picante, tem a banana verde com guacamole e os sublimes langostinos agridoces com saquê e gengibre. O público ao parecer é meio cativo, então o dono detecta os calouros, senta educadamente na mesa e conta a história do quadro que está pendurado sobre a janela da cozinha com uma foto em branco e preto de obreiros num frigorífico: “aquele ali entre as correntes e o cara de boina é meu avô”. E data dessa época a receita do clássico Ferrocarril (uma das palavras mais difíceis de pronunciar em espanhol, como “rural”): Pineral, Hierroquina e licor de marrasquino. Ainda quero provar, já que certamente voltarei. Dessa vez fui de refrescância de Mariposa, Hesperidina, Suco de limão, Ginger ale e Rodela de limão (Ginger B).

el refuerzo

El Refuerzo

O Reforço é tipo um armazém, com as paredes cheias de garrafas e quadros, uma balança antiga no balcão, com um mostrador de vidro refrigerado onde estão produtos perecíveis, bem a cara de San Telmo, com charme nostálgico de uma Buenos Aires de outros tempos. Um bar de coroa, mas em chave vintage pros boêmios, que poderia ser meio afetado, mas é simpático e acolhedor. É um lugar bem pequeninho, deve ter assim umas cinco, seis mesas. Descobrimos quando estávamos pelo bairro, buscando móveis ou saindo de uma sessão no finado cine club Buenos Aires Mon Amour, não me lembro bem, num fim de tarde. Naquela época estávamos buscando lugares pra tomar drinks à base de aperitivos nacionais, e foi lá que  encontramos, já que muitos dos bares que freqüentávamos, só ofereciam opções tanas. Me pareceu perfeito para o fim de tarde:pouca gente, picadas gostosas de feijão no vinagre com pimenta. Os tragos não são tão inventivos como os do DOPPEL, são mais clássicos, mas muito bem feitos. Na ocasião pedimos Pineral.

jack

Jack the ripper

O Jack the ripper oferece uma carta com drinks clássicos, não necessariamente aperitivos. Incluí na lista porque foi lá que fui apresentada ao Cynar Julep e me apaixonei instantaneamente. Foi inclusive uma recomendação do bartender e não figura na carta. O Cynar Julep simula um Mint Julep, com Cynar no lugar do Bourbon. Outra diferença é que inclui pomelo (toranja), uma santa fruta, cítrica e amarga, que transforma qualquer drink chinfrim em milagre…e um milagrinho é sem dúvida o Cynar Julep do Jack, um bar que oferece happy hour nos sábados até a meia noite (!), fica cheio no after office e só, em pleno coração da Recoleta. Está num palacinho estilo francês, e você já chega em grande estilo subindo uma escada suntuosa, dá de cara com uma lareira e um sofá na ante-sala, a barra fica em outro cômodo, tudo é muito, muito escuro, como um bom pub, sem a afetação irlandesa (não vá lá querendo tomar cerveja verde no dia da cerveja verde), e a trilha é de pérolas noventosas: Sonic Youth, Pixies e afins, além de invasões britânicas de todas as épocas.

Doppel: Juan de Garay, 500

EL Refuerzo: Chacabuco 872

Jack the ripper: Libertad 1275

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