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E pela sexta vez a Argentina entra na corrida pelos prêmios Oscar. A primeira vez em 74, com La Tregua, a segunda, em 84, com Camila, a terceira, no ano seguinte, quando Historia oficial saiu do Kodak Theatre como melhor filme estrangeiro. Campanella foi reincidente tendo concorrido em 2001 e ganhado em 2009. E agora chegou a vez de Damian Szifron e os seus relatos selvagens.

Entre os competidores não tem um peso pesado, como em 2009 em que Campanella teve que enfrentar Michael Haneke, mas não tá fácil também pro Szifron: tem filme em branco e preto que alude ao nazismo (ida), tem uma crítica ao jihadismo no Mali justo agora que a redação da Charlie Hebdo foi dizimada (será uma lástima se o filme do Sissako, Timbuktu, que ainda não vi, mas já amo, for oportunisticamente laureado como panfleto ocidental anti-terrorismo) , tem até os bons e velhos tempos mortos russos, acusados de estarem a serviço do Ocidente no anti-putinismo (Leviatã).

O Szifron é bem aclamado aqui por uma série chamada Os Simuladores, que não vi e não entendi bem do que se trata, embora já tenham tentado me explicar: algo como uma empresa que utiliza técnicas de simulacro pra resolver os problemas de seus clientes.

Tem também na bagagem um longa simpático que recupera alguns totens da sociedade argentina, como a psicologia, a camaradagem masculina e a chatice – ou histeria, como eles, versados no léxico psicanalítico que são, preferem – feminina. Um psicólogo é contratado pra tratar um policial que não está em condições de trabalhar porque descobriu que era traído pela esposa. Policial intui que a esposa do psicólogo também o trai. Projeção? Que nada, sabe como é, os policiais tem essa habilidade de detectar uma mentira até debaixo d’água! Bingo! Então, o psicólogo assim meio desajeitado, troncho, desenchabido e neurótico decide esquecer os problemas acompanhando o policial, recém-convertido em melhor amigo, em suas rondas e investigações cotidianas, adentrando o maravilhoso mundo masculino do peligro, da aventura e por que não, das coisas que realmente importam, deixando pra trás, a mediocridade da vida doméstica.

Relatos Salvajes estreou com mais pompa, depois de uma passagem pelo Festival de Cannes, em trocentas salas de Buenos Aires e se tornou um blockbuster instantaneamente. Num determinado momento era tema obrigatório nos taxis, nos almoços de família, e os cartazes no Cine Gaumont exibiam a plaquinha de Agotado horas antes do início das sessões. Alguns incrédulos insistiam na fila e preferiam ouvir do próprio vendedor de ingressos que realmente, definitivamente não tinha um misero ingressinho sobrando ali escondido. Paralelamente, a crítica estava encantada, destilando hipérboles a torto e a direito.

Eu fui assistir no dia em que o filme estreou e foi interessantíssimo como vivi uma situação que poderia perfeitamente estar no filme. Não vou me delongar, uma vez que aqui estamos para falar do filme em si e não de suas possibilidades, mas um casal ao meu lado resolveu narrar o filme tal qual partida de futebol, e ante minhas objeções, diagnosticaram que eu estava medicada, sugeriram uma visita ao psicólogo (a quem mais?) e ainda teceram hipóteses sobre o suspeitíssimo fato de eu estar assistindo a um filme no cinema, desacompanhada. O interessante é que há relatos similares nos cinemas Mercosul a fora.

Mas revendo em condições normais de temperatura e pressão, no conforto do meu lar e acompanhada, ufa, consegui me divertir e até gostar do filme, incluindo os episódios que tinham me parecido mais indigestos, os assumidamente gore, El más fuerte e Hasta que la muerte nos separe, a saber, o do quiproquó na estrada e obviamente, o do casamento.

Muito se questionou se seria realmente um longa ou um compêndio de curtas, uma vez que as narrativas são independentes entre si, ainda que uma estrutura se repita em todos eles, e ainda que todos tematizem a vingança

Tal estrutura consiste num conflito, que num crescendum atinge o clímax e explode em irracionalidade, e no absurdismo tragicômico. Os passageiros de um avião tem em comum um homem que é o comissário de bordo que acaba de invadir a cabine do piloto, como informa uma comissária que não só o conhecia, como o havia rechaçado, como todos os outros, cada um a seu modo. Tão inesperado quanto uma garçonete que encontra um personagem de seu passado, e se vê diante da possibilidade do tão esperado acerto de contas.  Tem até uma luta de classes rodoviária, ou só mais uma competiçãozinha que premia com masculinidade intacta e reluzente aquele que não só derrotar, mas destruir o inimigo, como bem diz qualquer manual do macho. Darín é o engenheiro especializado em explosões que se enfrenta à delinquente (nas palavras do mesmo) maquinaria estatal, numa batalha que o faz perder a família, o trabalho e algo da sanidade e dignidade. O mercado das almas a pleno vapor, disponível a um milionário pai de família não tão disposto a pagar qualquer preço para limpar a barra do filho perpetuador de um acidente fatal. E last but not least, uma festa de casamento-pesadelo de qualquer macho: logo depois do sim, a noiva pira ao descobrir a infidelidade do noivo com companheira de trabalho que exibe sua figura alta e magra pelo salão, e descreve em detalhe como vai depenar sua conta bancária e fazer da sua vida o inferno (sinônimos).

Na superfície Relatos Selvagens faz troça – com o timming das publicidades cancheritas (descoladas) argentinas em versão deluxe – mas me parece que no final das contas acaba levando muito à sério a vulgata economico-darwinista -hobbesiana na qual impera a lei do mais forte e o homem é o lobo do homem e etc. tal… Por outro lado, no meio de muito sangue, explosão, tapas e beijos, entre mortos e feridos, estamos todos à beira de um ataque de nervos, à intempérie dos nossos instintos, ao borde do abismo. E é precisamente esse borde que sustenta a ideia de uma comunidade. Mas qual comunidade? Todas, na fantasia reducionista dos entusiastas da antipolítica que não veem distinção nas mais distintas sociedades, ou mesmo nuances no interior das mesmas – nesse sentido, a fantasia é bastante democrática -, ou ainda, uma única comunidade, a grande e indissociável comunidade humana – reverso da fantasia dum world cinema em que japoneses e integrantes da tribo Massai, aborígenes e alemães compartilham os mesmos rituais vitais de nascimento, amor, morte, alianças, numa estética documentária do Nat Geo. Em Relatos, estamos diante da grande comunidade humana, onde os políticos são todos corruptos, o “sistema” (como diria o “saudoso” capitão Nascimento) brutaliza, o dinheiro dos ricos tudo compra, numa paisagem urbana (semi) asséptica (o semi é cortesia do vendedor de garapiñadas que adorna a Buenos Aires de Darin) e numa paisagem humana homogeneamente branca, onde ao “negro ressentido”, como bem observou G., não lhe é permitido sequer a cor ou os traços.

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