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Descobri a provocativa, intrépida, enciclopédica e hilária Pola Oloixarc lendo uma entrevista na Marie Claire. Na época ela tinha sido eleita a musa da Flip. Dizia a reportagem: “Formada em Filosofia, Pola (diminutivo de Paola) fala sobre pensadores como Kant, Hobbes e Rousseau com a mesma naturalidade com que discorre sobre os estilistas Alexander McQueen e Marc Jacobs.” Fiquei intrigadíssima com essa informação, e a primeira coisa que me chamou a atenção é que ela era uma escritora muito gata. Pois é, pura caretice essa apreciação. Então me veio à mente uma outra escritora galega (como eles chamam os espanhóis aqui, mesmo aqueles que não são naturais da Galícia) que li quando adolescente -acho que pelo cabelo assim liso, mas meio sujinho, volumoso- autora de Amor, curiosidade, prozac y dudas. Outra apreciação, limitada, talvez só porque as duas eram jovens e cancheras (o descolado deles). Descobriria mais tarde que essa comparação era além de limitada, equivocadíssima. A galega falava sempre sobre um monte de mulheres complicadas, da bossy à trola (piriguete) intelectual, e suas aventuras, desventuras sexuais. Um combo de cafuçagense eu assim classifiquei ainda naquela época, mas  fazer o que? Tive afeto. E esse afeto também foi transferido pra Pola, só de olhar pro cabelo sujinho e volumoso de madrileña dela. Fui perguntar prum amigo, e ele teceu alguns elogios.

Mas foi só depois que G. começou a ler, incentivado pelo mesmo amigo, que eu fiquei mais instigada, estava realmente entusiasmado e era raro vê-lo assim, me contava que num determinado momento, uma menina meio que era bolinada por um garoto com síndrome de down num McDonalds. Mas isso não era uma questão pra menina (a bolinação, obviamente), ela sentia-se curiosa, sentia um misto de afeto, talvez de indiferença, não lembro exatamente o quê, o fato é que resolvi ler o livro imediatamente, talvez porque estivesse nesse momento da catarse do feminismo de internet em torno a questões como estupro.

Então um dia à tarde lá na casa dele, peguei o livro As Teorias Selvagens e comecei a ler. Uma certa referência à literatura antropológica, descrevendo um ritual pra atingir a maturidade em algum lugar do mundo, associada a muitas referências filosóficas e ao mesmo tempo, ao geekismo, uma mistura assim de Borges com Os deuses devem estar loucos, prafrentismos de toda a ordem (um deles um game chamado Dirty Wars), numa narrativa pop up, ao mesmo tempo fragmentária e vertiginosa.

Um dos eixos do livro narra a história de dois jovens Pabst e Kamtchowsky descritos sem a menor cerimônia como a materialização do cão chupando manga, da mistura do deus me livre com o cruz credo (e se bem é reforçada o tempo todo a feiura lazarenta desse casal, essa insistência se resignifica quando ele faz um discurso interessantíssimo diante de um casal lindo que propunha um menáge). Seguimos suas peripéciaspela noite porteña, pelos hot spots dos incluídos, artistas, moderninhos, hipsters, ou como queira chamar essa fauna antenada e caricata das mais distintas urbes,e sonhamos encontrá-los. Não só para não morrermos de tédio, mas para escutá-los e cultuá-los.

Algo que eu realmente adorei ainda no início: um casal conversava (sabemos depois que esse é o casal progenitor da feiosa citada acima), a garota estudava psicologia, e o cara ficava encantado com a naturalidade com que ela falava em fase oral, anal, em plena ditadura. Como a psicologia tinha o privilégio da putaria num momento de repressão sexual. E isso passou a ser uma constante, o livro bardeaba todos os totens da sociedade argentina, inclusive o mais tabu de todos: os desaparecidos.

No momento em que foi lançado, diz a lenda, exigiram que ela se retratasse, suspeitaram que na verdade, Pola era um homem (talvez só um pudesse atingir tais níveis de erudição e crueldade), Beatriz Sarlo (um dia quem sabe, um texto sobre ela), destaca e ao mesmo tempo esnoba o enciclopedismo, lembrando que em tempos de google… O fato é que As Teorias é um acontecimento, tal qual Ricardo Piglia definiu.

Em algum momento, ainda no início, eu achei tudo muito hilário e ao mesmo tempo muito cruel. De certa forma tava lá essa mulher que eu sabia que estava terrible (o sinônimo de muito gata aqui) mangando de tudo e de todos. Mas felizmente não era só isso: há sim uma predileção pela iconoclastia, muito mais que puro gongo, que puro xoxo. Em uma festa chamada Zarpe Diem (zarpar aqui significa se exceder), tal como em tantas outras em que a subversão é dada por  ritmos do terceiro mundo, popularescos e cafonas, mas modificadas por djs de música eletrônica que os convertem em versões mais palatáveis ao gosto da juventude transnacionalizada, Pabst, um dos feios do casal acima citado, cercado pela fauna neo-hippie drogadicta, num momento de puro desconcerto e falta de assunto, faz esse monólogo:

“Nada compite en asco con el capitalismo escénico desarrollado por las izquierdas para la comercialización sus productos. Es una forma de banalidad común a las sociologías triunfantes, el silogismo práctico según el cual la verdad esta necesariamente del lado de los perseguidos y de los pobres, solo porque halaga el ideal democrático en vigencia y otra sarta de eufemismos que no pueden ser puestos en duda. Tener una izquierda triunfal en el ámbito de la cultura tiene consecuencias peores que malas películas. Vemos películas malas porque, como espectadores, nos condenaron al lugar de etnólogos burgueses interesados en sí mismos; en un si mismos hacia abajo. El relato de la victima convertido en fábula, el clima siniestro que rodea las nociones de jerarquía y autoridad – nociones que resulta tan evidente rechazar – encierra una fresca operación: ser victimas nos releva de todo el juicio moral o ético sobre nuestros propios actos. La violencia policiaca llega para borrar los actos, santificando automáticamente al bueno inapelable, la victima. Así se pierde una guerra, pero se obtiene una victoria moral sobre bases filosóficamente carenciadas”

Naturalmente, criou-se uma espécie de culto, muito além do mero fã clube, algo mais próximo de um estilo de vida, um movimento estético-político, o Polismo. Consistia em segui-la por toda Buenos Aires e imaginar a opinião de Pola sobre os mais distintos assuntos. Consistia também em conhecer a opinião de qualquer pessoa sobre ela, e obviamente, consistia na catequese, introduzindo a todos em sua obra.

Com o tempo “a opinião de Pola sobre qualquer tema” discordava da opinião dos seguidores do polismo. O polismo ainda existe firme e forte, até porque, como lembrou o amigo, aquele que nos abriu as portas desse mundo, Pola se insere numa tradição de argentinos notáveis e geniais que tem opiniões políticas um tanto quanto controversas, pra dizer o mínimo. Pra mim é interessantíssimo que a Argentina proponha isso, esfregar na nossa cara as ambiguidades, as dissonâncias, os atritos entre arte e política. Mas o polismo segue firme e forte também, porque como bem lembrou G., se insere numa outra argentiníssima tradição, a dos movimentos que prescindem seus próprios líderes, suas referências originárias, tendo no peronismo seu exemplo paradigmático.

O polismo está morto! Viva o polismo!

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