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Embora esse título possa sugerir uma ideia de unidade, já aviso que há poucas correspondências entre os filmes que são o centro dessa pequena reflexão: Infância clandestina e Los salvajes. Enquanto o primeiro é uma produção robusta estrelado por uma atriz conhecida (Natalia Oreiro, ex paquita), o segundo é uma produção modesta estrelado por não atores. Como o título sugere, nos dois casos, personagens principais são crianças-adolescentes numa situação de clandestinidade bastante peculiar. No primeiro caso, o primogênito de uma família de guerrilheiros,assume uma nova identidade para assumir uma nova vida de volta ao seu país de origem, numa arriscada empreitada para reunir-se com os pais exilados após um violento atentado. Em Los salvajes não existe família e não existe utopia, apenas a fuga de uma instituição correcional para menores infratores. E paramos por aqui. No entanto esses dois filmes expressam algo que vão bem além deles: expressam duas distintas tendencias do cinema argentino contemporâneo. Infância clandestina é mais um filme sobre a ditadura militar. Penso que não seria exagero dizer que os filmes de ditadura estão para a Argentina como os favela movies estão para o Brasil. Certa vez conversando com um amigo, ele me dizia que tinha a impressão de que enquanto nós brasileiros estávamos cada vez mais nos rendendo a um discurso sociologizante predominante na cinematografia nacional, os argentinos estão cada vez mais presos a um discurso psicologizante de sua realidade. Faz algum sentido. Brasil como a promessa de país do futuro que não vinga e Argentina refém do seu passado de glória, entre a busca da autonomia do pai Perón e da cura das feridas de uma traumática ditadura castradora. O que isso tem a ver com esses dois filmes? Enquanto Infância configura mais do mesmo deslizando entre a nostalgia e o trauma, Los salvajes aponta para um cinema moderno, climático, vigoroso que tem em Lucrecia Martel sua maior expoente.

Pensar sobre esse filme seria como pensar: o que teria acontecido  a Antoine Doianel após a revelação de seu rosto em close na praia durante a sua fuga, que nos deixou completamente perturbados? Sabemos pelos outros filmes que narram as peripércias do alter-ego de Truffaut, que ele se alista no exército,se converte em desertor e se apaixona constantemente. Mas o que aconteceu nos dias, semanas, meses após Doianel escapar do reformatório, para onde foi enviado pelo próprio padrasto que o rejeitava?

Pouco mais de 50 anos depois, América do Sul, Argentina: seis jovens empreendem a fuga de um reformatório localizado no interior do país. A fuga aqui não depende somente da perícia dos fugitivos, como no caso do filme francês, que consistia em aguardar o momento oportuno para distanciar-se durante uma atividade ao ar livre. Os cinco garotos e a garota argentina provocam terror e morte antes de se lançarem ao desconhecido, ou ainda, ao entreato, que é onde o filme se concentra: a travessia do montanhoso entorno para por fim, chegar à cidade, eterna promessa de liberdade.

Um mote como esse abre espaço para inúmeras possibilidades, sendo a mais previsível, a aventura comum de camaradagem, que por vezes os aproxima,por vezes  os distancia, espécie de rito iniciático ao amor, à violência, bem como os desafios para tornar-se definitivamente homens ou mulheres, caminho esse trilhado até certo ponto por Infância Clandestina. No entanto, não se pode ignorar que se tratam de jovens infratores num hostil contexto de sociedade terceiro-mundista: pouco sabemos sobre o passado desses personagens, menos ainda se imagina sobre o futuro, – à parte dos delírios juvenis que compartilham – ou melhor, para onde irão retornar? Nada disso se faz realmente necessário, quando já temos o passado e o presente nos corpos dos personagens, compondo uma imagem- tempo em si mesma. Fadel trilha outro caminho. Fusiona os corpos de seus jovens personagens à natureza. Num belíssimo plano, a luz exterior que entra pela caverna diminui a intensidade até que dois garotos que ali se encontram não mais possam ser distinguidos das formações rochosas.

Ora presa, ora predador, o grupo vai acumulando baixas. Não há nada de tragédia anunciada como em Infância Clandestina, mas bem de improviso que acompanha o ritmo da natureza: improviso marcado pela necessidade de comer que nem sempre vem acompanhada da oferta de comida. Improviso dos encontros improváveis e das relações improváveis que se estabelecem a partir desses encontros: um deles é envolvido como testemunha ocular de um crime e numa sequencia magistral termina por unir assassino e vitima. A única garota do grupo que curiosamente rechaça as propostas de casamento de seus pares, se envolve com um estranho ermitão, muito mais velho que ela, de quem pouco se sabe sobre o passado. O jovem que desponta como protagonista ainda no princípio do filme enquanto líder da fuga do reformatório, sucumbe precocemente ante o encontro com os gaúchos, e se funde aos matizes hipnóticos de verde da paisagem, estonteante, jamais acolhedora. Não há redenção, não há laços a serem fortalecidos, só fragmentos. Personagens fragmentados em episódios fragmentados que se desprendem da narrativa, até que esta por fim se fragmente a tal ponto em que não há mais historias possíveis, apenas a passagem inexorável do tempo. O registro que segue sem seus personagens.

Infancia Clandestina (Benjamín Ávila, Argentina, 2012) – em cartaz no Arteplex Centro, Gaumont, Cinemark Puerto Madeo, Cinemark Palermo, Hoyts Abasto

Los Salvajes (Alejandro Fadel Argentina, 2012) – em cartaz no Malba cine

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